domingo, 11 de janeiro de 2015

Como imagino o futuro



Evento do Facebook:
FUTURO: Como você o enxerga?
https://www.facebook.com/events/299984760212606/?fref=ts





Como imagino o futuro:


(1) Valorização de Autonomia, Responsabilidade e Solidariedade.

Pois só assim teremos PESSOAS capazes de exercitar a VERDADEIRA DEMOCRACIA:

-- Com AUTONOMIA se conquista a Liberdade (que não pode ser doada a ninguém)

-- Com RESPONSABILIDADE se constrói a Igualdade (somente Seres Humanos Responsáveis podem se respeitar e respeitar a diversidade de agir, pensar, sentir e ser).

-- SOLIDARIEDADE é a expressão, no dia a dia, da Fraternidade que nos permite viver em Sociedade como IRMÃOS. E não como lobos, nos devorando e destruindo, em jogos competitivos.

(2) Aprendizado baseado em interesses dos Aprendizes, com apoio de:

-- Mentores / Tutores, 
-- Recursos Educacionais Abertos (Open-Source), 
-- Em Ambientes Suportados por TIC ou 
-- Eventos Presenciais auto organizados por interesses compartilhados ou projetos de pesquisa comuns

(3)  Democracia Direta, com pessoas propondo, debatendo e votando em Projetos, não em Representantes, via WEB, Telecentros e Urnas Eletrônicas (com sistemas de Código Aberto (Open Source) para melhoria contínua e possibilidade de validação e prevenção de fraudes por qualquer interessado - o que é diferente do possibilitado nos Sistemas Proprietários das atuais Urnas Eletrônicas)

(4) Superação da Economia de Mercado por um Modelo baseado em:

-- Cooperação Global, via WEB, para efetuar, de forma iterativa [Design (CoCriação) / Identificação de Demanda (Em função do Nível de Interesse na CoCriação de Produtos e Serviços) / Planejamento de Produtos, Processos e Recursos / Produção / Acesso Compartilhado (não Aquisição) / Reutilização] de Produtos e seus Componentes

(5) Utilização máxima de Automação, substituindo papéis de trabalho normalmente feitos pelos seres humanos, eliminando a necessidade de esforços humanos (físicos ou mentais), liberando pessoas do sofrimento em ocupações monótonas, irrelevantes ou perigosas que tem se tornado cada vez menos necessárias. Para isso temos que nos livrar da obsessão social do "trabalho-por-renda"


Abandonando os limites de analise de possibilidades da dicotomia Economia de Mercado ('Capitalismo') vs. Economia de Planejamento Central ('Comunismo' / 'Socialismo'). 
Veja como pode funcionar, sem a 'Vanguarda do Proletariado' controlando tudo (não deu e nunca daria certo - só se substitui a corrupção do Mercado pela corrupção dos Planejadores)

Uma possibilidade de implantação do Modelo Econômico Baseado em Recursos e Lei Natural (proposto em: http://umanovaformadepensar.com.br/)

Superação da Economia de Mercado por um Modelo baseado em:

-- Cooperação Global, via WEB, para efetuar, de forma iterativa: 
  • Design (CoCriação) / 
  • Identificação de Demanda (Em função do Nível de Interesse na CoCriação de Produtos e Serviços) / 
  • Planejamento de Produtos, Processos e Recursos / 
  • Produção / 
  • Acesso Compartilhado (não Aquisição) / 
  • Reutilização de Produtos e seus Componentes



-- Utilização máxima de Automação, substituindo papéis de trabalho normalmente feitos pelos seres humanos, eliminando a necessidade de esforços humanos (físicos ou mentais), liberando pessoas do sofrimento em ocupações monótonas, irrelevantes ou perigosas que tem se tornado cada vez menos necessárias. Para isso temos que nos livrar da obsessão social do "trabalho-por-renda"

Observação: Cabe ressaltar que a implantação de um tal modelo se daria de 'baixo para cima' (como identifico que já está ocorrendo) por [adesão consciente] e não por [lei ou revolução]. Por exemplo: ninguém seria obrigado a compartilhar bicicletas, carros, residências. Poderia continuar a ter o seu (embora isso esteja se tornando muito mais oneroso que utilizar de modo compartilhado). Não se advoga a abolição da propriedade. Mas a sua gradual substituição pelo acesso, por comodidade e consciência de sustentabilidade (não apenas ecológica).

Lolita Sala Claudio, eu me pergunto qual é o limite da adesão voluntária, por exemplo, eu lembro da fase de implantação do uso de cinto de segurança nos carros, quantas pessoas teriam morrido, quanto o sistema de hospitais teriam sido sobrecarregados se em vez de obrigação, tivéssemos esperado a adesão... (?)


Claudio Estevam Próspero Lolita, casos em que seja necessária regulação social, continuam a ser tratados por legislação, como o caso citado do cinto de segurança. Em qualquer modelo continuaremos precisando de leis e normas para regulamentar a vida em sociedade. 

Em minha vis
ão substituo a construção desta legislação: 

- da atual Democracia Representativa (muito sujeita a corrupções e atrasos de leis necessárias por atuação de lobistas)

- por uma Democracia Direta com pessoas propondo, debatendo e votando em Projetos, não em Representantes, via WEB, Telecentros e Urnas Eletrônicas

Em minha visão substituo a construção desta legislação: 

O que já está ocorrendo - sobre este tópico de minha visão:
*** {Utilização máxima de Automação, substituindo papéis de trabalho normalmente feitos pelos seres humanos, eliminando a necessidade de esforços humanos (físicos ou mentais), liberando pessoas do sofrimento em ocupações monótonas, irrelevantes ou perigosas que tem se tornado cada vez menos necessárias. Para isso temos que nos livrar da obsessão social do "trabalho-por-renda"}


Apresentação desta tradução
Prefácio e Dedicatória
Introdução
Parte 1 - Cap.1 - Desemprego Hoje
Parte 1 - Cap. 2 - A Falácia de Luddite
Parte 1 - Cap. 3 - Crescimento Exponencial
Parte 1 - Cap. 4 - Tecnologia da Informação
Parte 1 - Cap. 5 - Inteligência
Parte 1 - Cap. 6 - Inteligência Artificial
Parte 1 - Cap. 7.0 - Evidências de Automação
Parte 1 - Cap. 7.1 - VAREJO AUTOMATIZADO
Parte 1 - Cap. 7.2 - FABRICAÇÃO AUTOMATIZADA
Parte 1 - Cap. 7.3 - IMPRESSÃO 3D
Parte 1 - Cap. 7.4 - CONSTRUÇÃO AUTOMATIZADA
Parte 1 - Cap. 7.5 - JORNALISMO AUTOMATIZADO
Parte 1 - Cap. 7.6 - ASSISTENTES - INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA)
Parte 1 - Cap. 7.7 - VEÍCULOS AUTÔNOMOS
Parte 1 - Cap. 7.8 - UMA (POSSÍVEL) HISTÓRIA DE CARROS QUE SE AUTO-DIRIGEM
Parte 1 - Cap. 8 - Aceitação Social
Parte 1 - Cap. 9 - Desemprego Amanhã
Parte 2 - Cap. 10 - Identidade via Trabalho
Parte 2 - Cap. 11 - A Busca da Felicidade
Parte 2 - Cap. 12 - O escorpião e o sapo
Parte 2 - Cap. 13 - Crescimento e Felicidade
ANEXO:
E AGORA? Para onde vamos para Sobreviver ao Colapso Econômico e Ser Feliz?

Ver também:
Dica da Lolita Sala
Aproveito a dica da Lolita Sala para indicar a iniciativa da Lala Deheinzelin - da qual participei, nos primeiros Saraus de Criação de Futuros - para cocriarmos conteúdos inciais da Wiki Futuros. Saiba mais:  https://www.facebook.com/criefuturos




quarta-feira, 30 de julho de 2014

De uma Cosmovisão de Verdades em Conflito para uma de Versões em Colaboração possibilitando Vivermos Melhor


"Configurando Cenas Colaborativas na Comunidade.
Contribuições da Mediação e dos Diálogos Facilitados".

Tradução de: “Configurando Escenas Colaborativas En La Comunidad. Aportes de la Mediación y Diálogos facilitados” - Gabriela Jablkowski - terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 http://seminariointernacionalmediacao.blogspot.com.br/2013_02_19_archive.html


O tema que eu quero compartilhar neste artigo está vinculado à convivência, em termos gerais, que chamamos de comunitária.

Se compartilhamos algo, a respeito deste assunto, é que vivemos em um momento de confusão, de imensa preocupação e, até mesmo, em momentos de grande tristeza e desolação. E isso não é porque se apresentam, em nossos contextos comunitários, situações conflituosas, nem mesmo porque eles podem ser acompanhados por aquilo que reconhecemos como situações de violência.

A novidade, em minha opinião, é que, como nunca antes, estamos fazendo um esforço para superar a dureza, o enfraquecimento dos laços e a solidão que produz a indefinição e, até mesmo, a não visibilidade própria e dos outros.

Hoje precisamos, mais do que nunca e, sem dúvida alguma (e isso é algo que sempre digo para mim mesma) renovar a vitalidade que nos permita - sem negar a realidade ou perspectivas críticas sobre o ambiente político e social - saber que podemos fazer coisas para viver melhor.

E esse poder "viver melhor", necessariamente, nos remete ou encontra o seu fundamento no conjunto. Então falo de renovar a vitalidade necessária para entrar em um processo no qual cada um pode construir-se naquele que quer ser e, juntos, construirmos a comunidade que queremos ser.

Para tornar isso possível, não podemos nos distrair, nem um momento sequer, do encontro com nós mesmos e do encontro com os outros. Porque os processos de autoconstrução ocorrem no contexto das relações interpessoais (eu preciso dos outros para ser quem eu sou) e processos de construção de comunidade requerem sujeitos interagindo e capaz de observar-se como sujeitos dessas interações.

Como vocês devem ter notado, eu falo em termos de construção. Neste processo simultâneo de autoconstrução e construção do coletivo. E falo em termos de construção, porque a proposta de construir me posiciona frente a duas questões-chave: invenção e encontro.

Invenção, porque, apesar da perplexidade e do sofrimento, temos em nossas mãos a oportunidade de criar novos significados e de abrir novos caminhos para vivenciar que há outras formas possíveis para configurar as relações interpessoais.

Encontro, porque a única maneira de criar outras formas possíveis de se relacionar é refletirmos juntos, repensando os próprios vínculos e experimentando - entre todos - novas práticas que nos permitam viver melhor.

Agora, para poder pensar em termos de "invenção e encontro" é condição prévia dar boas-vindas e dar um lugar de destaque ao desejo e, neste caso, ao "desejo de fazer um futuro melhor para todos".

E notem que eu falo de "desejo de fazer juntos, um futuro melhor para todos" e não apenas de "desejo de um futuro melhor para todos", porque o fazer juntos um futuro melhor para todos envolve um esforço, uma ação que necessariamente é compartilhada.

Fazer juntos um futuro melhor para todos é uma atividade coletiva que requer, sem dúvida, um sonho, uma imagem positiva do futuro, mas também um compromisso, uma ação compartilhada e responsável. Esse esforço conjunto é que nos permitirá "nos tornarmos um coletivo" e tem o status de permanente, do meu ponto de vista. É um esforço que não termina. Um fogo que precisa ser alimentado e que pode até ser chamado de "o nutriente do tecido social, a fundação da comunidade".

Este esforço conjunto deverá gerar e garantir as condições para experimentar outras formas possíveis de nos relacionarmos. A questão, então, é como gerar e garantir essas condições.


Uma resposta possível, encontro, justamente, no título deste artigo; "configurando cenas colaborativas na comunidade. Contribuições da Mediação e dos Diálogos Facilitados".

Para explicar o meu ponto de vista, eu convido vocês a me acompanhar no jogo "para dissecar o título".

Em primeiro lugar, eu quero lhes contar por que eu falo de cenas quando o que eu estou propondo é, certamente, algo muito mais ambicioso, abrangente e transcendente.

Peço para ele me permitam certo atropelo, alguma pressa intelectual em argumentar sobre este ponto. Embora eu saiba que esta ideia permite seu aprofundamento, com mais fundamento, procuro apenas deixar o tema proposto, como um esboço, para poder avançar.

Sob esta licença, parto da seguinte metáfora: tradicionalmente as instituições comunitárias, entre elas a escola, a família, etc., contavam com um roteiro, um texto escrito, a priori, de suas vivências cotidianas que, enquanto homogeneizavam suas práticas, ofereciam certas certezas sobre o que cada ator deveria fazer e sobre o resultado que deveria alcançar. Neste contexto, cada cena pertencia a um quadro representativo padrão mais complexo, abrangente e pré-determinado. Conhecia-se, de antemão, o trabalho e, ao mesmo tempo, era conhecido, de antemão, que vínculo teria lugar entre os atores. As relações sociais tinham programada uma maneira particular de conceber os vínculos sociais e de abordar os conflitos que fossem gerados na interação de seus integrantes.

Por exemplo, no caso da escola, as relações sociais dependiam, fortemente, da legitimação da natureza assimétrica de seus papéis, da aceitação de modos particulares para a compreensão e a resolução de seus conflitos e da forte solidariedade entre a família e a escola, em que a família transferia para a escola sua autoridade. Frases comuns como "a professora é a segunda mãe" ou "a escola é a segunda casa", demonstram essa última ideia.

Este roteiro pode ser sustentado enquanto a ilusão do futuro projetado permaneceu viva: a de que uma sociedade assim educada acabaria sendo mais civilizada, que a educação garantiria o progresso e a ascensão social, etc., etc.

A verdade é que o mundo mudou e com ele as ilusões que sustentavam um determinado funcionamento institucional. Essas mudanças, que afetaram e ainda afetam todos os campos da vida social, produziram o desaparecimento, para não dizer a ruptura, dessa ilusão de futuro em que se apoiavam as práticas institucionais. As mesmas começam a entrar em crise, perdendo sua aceitação, perdendo o consentimento social que as legitimavam.

Então, como assinalou Ignaicio Lewcowicz "se antes os atores institucionais sofriam pelo caráter normativo gerado a partir da vitalidade das representações simbólicas, com seu desvanecimento os atores institucionais começam a sofrer com a incapacidade de estabelecer, por falta de normas, de códigos e representações comuns que unam e promovam a construção de vínculos”.

A configuração cênica atual já não consiste na construção da diferença dentro de um universo que tende para a homogeneização. Hoje, a configuração cênica é o meio através do qual cada grupo social pode configurar os seus significados e organizar os vínculos entre seus atores.
A direção se inverte. Agora é mediante a configuração cênica, que se pode chegar a representações e significados, com a ressalva de que estes não já não são universais, mas individuais e situacionais: eles funcionam para esse grupo e em suas circunstâncias específicas.
Isso é algo bem menor que um roteiro que busque a universalização. Se o pensarmos em termos estatísticos, é definitivamente menos abrangente, mas extremamente potente, se pensarmos em termos de ressonâncias pessoais e de recomposição de tecidos sociais.

Em segundo lugar, seguindo na análise do título deste artigo, quero explicar por que modifico o conceito cenas com o adjetivo colaborativo.

A experiência me diz que a configuração de cenas colaborativas promove a construção de novos significados e práticas para a convivência comunitária. E isto é precisamente o que procuramos.

Para explicar por que eu o entendo assim, vou deter-me, em primeiro lugar, em algumas características que identifico como princípios constitutivos das cenas colaborativas. Eles são:

A hospitalidade
O dialogar e conversar
A liderança (protagonismo) compartilhada / distribuída
As visões compartilhadas
O estabelecimento de acordos
O enfrentamento positivo dos conflitos

Tentarei resumir o que entendo sobre cada um desses recursos:
A hospitalidade refere-se a abandonar o uso de significados universais para propiciar a aceitação das diferenças e dos mistérios que carregamos. Hospitalidade é o que nos permite, em vez de verdades, falemos de Versões, que as diferentes perspectivas, colocadas pelos atores, tenham lugar na cena. Neste sentido habilita, como diria Maturana, o mútuo reconhecimento, o reconhecimento de cada um de nós como um "legítimo outro". Falar de hospitalidade implica, então, falar de um quadro de refúgio para que as expressões genuínas dos participantes tenham oportunidades de ser ouvidas e compreendidas. E envolve uma estrutura de confiança em si mesmo e no outro, no que é conhecido e no que ainda não conhecemos, nas potências, nas possibilidades. A hospitalidade, neste sentido, também implica um compromisso com o futuro.
Menciono o diálogo como característica constitutiva porque o entendo praticamente como sinônimo de encontro. O diálogo é uma conversação, ou seja, um movimento que gera uma conversão, uma modificação, uma mudança, um crescimento por deslizamento a partir da posição inicial. Entendo o diálogo, insisto, como um movimento, uma espécie de encontro com o outro que, juntos, constroem uma instância de superação das iniciais, de onde se negocia e criamos novos significados. Os atores da situação dialógica não procuram, como no debate, a afirmação da própria posição. O diálogo, ao contrário de outros atos de linguagem, longe de enclausurar promove uma atitude  de abertura, uma disposição de mudar.
Com co-liderança (liderança (protagonismo) compartilhada / distribuída) entendo que cada pessoa e todas, em situações de igualdade, são consideradas sujeitos  e não objetos cênicos. Enquanto que com o termo protagonismo foi enfatizada a autonomia e responsabilidade individual, com o termo co- protagonismo reforço a ideia de rede, de uma espécie de "sociedade inclusiva, igualitária e interdependente em que os jogadores sustentam o objetivo de criar algo juntos.
A visão compartilhada é a característica que enfatiza, na cena colaborativa, a perspectiva de futuro. A visão compartilhada, a imagem compartilhada de futuro permite ao emergente assumir o status de motor para a mudança. É a imagem coletiva que cria a disposição de ir adiante. Esta imagem construída coletivamente simultaneamente se alimenta e nutre o desejo de fazer coisas juntos.

Os acordos, construídos coletivamente, a partir das expectativas e visões comuns, tornam-se a garantia da estabilidade, pois permitem que o jogo cênico torne-se regulamentado. Os acordos reconhecem as ações e atitudes que cada um tem que fazer / ter para conseguir o que se quer fazer juntos. Reconstrói a ligação entre o ter e o querer e essa religação é a plataforma que sustenta os esforços. Os acordos, por estar acima das singularidades, tornam-se uma pequena, mas por vezes, poderosa manifestação da Lei. E, enquanto lei: ao mesmo tempo em que restringe, habilita, protege, iguala.

O enfrentamento positivo dos conflitos permite que os atores percebam as situações de conflito como processos ao invés de produtos. Isso lhes permite diferenciar as pessoas dos problemas, e permite realizar experiências de trânsito positivo do conflito para a mudança. Sabemos que as diferenças, quando são percebidas como antagônicas, geram divisões, confrontos, tensão e / ou ideias divergentes sobre os caminhos a seguir. Passar do confronto para o enfrentamento dos conflitos habilita caminhos para o encontro ou a construção de novas alternativas.


Necessito destacar mais duas questões sobre essas características.

Primeiro, que foram selecionadas, partindo da identificação em práticas de trabalho e não excluo que outros fatores afetem na construção das mesmas.

Em segundo lugar e, em minha opinião o mais importante, é que todas essas características ocorrem simultaneamente, formando uma rede complexa, interdependente e inter-relacionada.

Cada característica é tanto um princípio (por isso os nomeio como constituintes) e um local de chegada. São requisitos e consequências, causa e efeito, parte e todo. Todas elas,  simultaneamente, predispõem ao mesmo tempo que compõem a cena colaborativa.

As instituições comunitárias, como eu as entendo, têm que promover que essas características ganhem vida em suas cenas e, para isso, devem garantir que elas sejam percebidas e vividas como princípios constitutivos. Para gerar as condições necessárias para a configuração de cenas comunitárias colaborativas, as instituições devem garantir a experimentação de suas características como princípios fundantes.

Para acabar com a dissecação do título deste artigo, me deterei em dois métodos que, em meu entendimento, fornecem informações e dispositivos para a configuração de cenas comunitárias colaborativas. Falo dos Diálogos facilitados e da Mediação.

Ambas as metodologias são e, ao mesmo tempo, promovem (garantem e geram) a configuração de cenas colaborativas. O entendo assim porque:

·         Permitem trabalhar o objetivo de transformar os vínculos.

·         Tem como premissa revalorizar recursos e oportunidadesexistentes e gerar outras, inéditas, para construir realidades comuns e novos caminhos para sua consolidação.

·         Não tratam de suprimir o conflito, mas sim trabalhar com a diferença e a diversidade de perspectivas como fonte de enriquecimento para novas relações.

·         Buscam intervir em um processo que estimula a construção e a criatividade social.

·         Dão vida ao conceito de "poder" como um verbo (e não um substantivo), o que é o importante para a construção de  futuros, para entrar no universo das possibilidades.

O que é mediação e a facilitação de diálogos, senão um compromisso com a construção de um mundo melhor para todos?

No processo de mediação e facilitação, temos a oportunidade de gerar e garantir as condições para que tenham espaço os esforços que favorecem a restauração do tecido social. Isto possibilita redefinir o pensável, o possível e o conhecimento: sobre nós mesmos, sobre os outros, com os quais nos relacionamos, sobre as formas em que se estabelecem essas relações.

As estratégias de intervenção dessas metodologias são, definitivamente, estratégias de ligadura. Convidam a compor e compor-se pensando com outros, inventando como estar nessa situação, habitando-a, e assumindo de antemão como tem que estar o que se necessita para viver lá.

Eu estou falando, então, de uma mudança de paradigma, que, como diz Mark B. Woodhouse sempre mudar nossa definição do que é possível."

Agora, para abrir a porta para o universo do possível, se exige uma mudança de epistemologia. Nós não podemos mudar nossas suposições fundamentais sobre o mundo sem mudar a nossa forma de obter conhecimento sobre ele. A cada visão de mundo corresponde uma forma de saber, uma epistemologia.

E se aceitarmos a ideia de que todos nós conhecemos de maneiras distintas e compomos mundos diferentes, como chegamos a pontos de vista comuns? Definitivamente, a resposta está no diálogo, no intercambio.

Spinoza define o conceito de "corpo" simultaneamente de duas formas. Por um lado, um corpo, por menor que seja, comporta sempre uma afinidade de partículas. São as relações de repouso e movimento, de velocidade e lentidão, entre as partículas, que irão definir o corpo, a individualidade do corpo. Por outro lado, um corpo afeta a outros corpos distintos e é afetado por eles; este poder de afetar ou de ser afetado também define um corpo em sua individualidade.

Da minha perspectiva, quando dialogamos em uma mediação ou facilitação devemos incentivar que os corpos se afetem, se modifiquem, como plataforma para emergir as coisas que não eram registradas anteriormente. Nesse sentido, o espaço ético que se abre é um espaço de produção subjetiva e produção de novas realidades construídas a partir de nós. Nestas metodologias "conversamos", ou seja, nós conseguimos "conversões".

O "nós" reconhece que cada um dos que compõem o plural é sujeito ativo em seu processo constitutivo e não objeto do pensar de outros.

A partir desta perspectiva, entendo que a recomposição dos laços sociais, o esforço contínuo para fazer - juntos - um futuro melhor para todos, não se baseia na ideia de defender a ausência de conflitos, de desacordos, de diferenças, de disputas.

Fazer o esforço conjunto para construir um futuro melhor para todos implica:

·         Reconhecer as virtudes e os valores de cada integrante da comunidade e aqueles produzidos no coletivo.

·         Adotar um paradigma positivo e construtivo sobre conflitos.

·         Criar uma ética do presente e para o futuro.

·         Gerar o movimento de estruturas  individualistas para a construção da participação comunitária responsável.

·         Incentivar a construção de uma consciência coletiva que nos permita, diariamente, renovar a vitalidade necessária para construir e viver a interdependência que liga com igualdade, justiça e alegria.

 



 

Ignaicio Lewcowicz, “Pensar sin Estado” Ed. Paidós, Buenos Aires, 2005.

 

Woodhouse, Mark “Paradigm Wars: wordviews for a new age” Frog. Lta. 1996