Mostrando postagens com marcador Capitalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Capitalismo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de agosto de 2010

ECONOMIST.COM: Economia da China ultrapassa a do Japão em termos reais - "China e Índia foram as maiores economias do mundo por quase todos os últimos 2.000 anos" !!! - Angus Maddison

Figura 1: A História do PIB Mundial 




























Minha opinião é que a análise dos fatores abaixo contribui para solucionar o mistério proposto no final do artigo do The Economist:

·         Por que elas (China e Índia) recuaram tanto deve ser mais misterioso do que porque estão florescendo atualmente.

É interessante observar onde estão certos eventos históricos na figura acima:

·         A “Derrota da Dinastia da Marinha” e a destruição dos estaleiros chineses, pelos vencedores da guerra interna pelo trono. Estes navios chineses permitiam expedições marítimas no Oceano Indico com MILHARES de soldados chineses “apoiando” a “abertura dos portos” para os seus comerciantes.  (Lembro-me de ter visto uma imagem comparando um navio chinês com as caravelas dos portugueses / espanhóis das Grandes Navegações, ocorridas muitos anos depois – parece-me que seria como comparar um transatlântico (navio chinês) com uma pequena lancha (caravelas).  Se não tivesse havido esta reviravolta política que destruiu a capacidade marítima da China, talvez a língua comercial teria sido, sempre, o Mandarim e não o Inglês / Espanhol.

·         As Grandes Navegações fonte dos Impérios: português, espanhol, holandês, inglês, austro-húngaro (Mercantilismo / Colonialismo)

·         Independência dos Estados Unidos

·         Revolução Francesa

·         Revolução Industrial  (industrialização do Primeiro Mundo – Capitalismo Liberal (ou Utopia Burguesa – Adam Smith, Ricardo, Max Weber))

·         Revoluções Comunistas (Industrialização do Segundo Mundo ( Capitalismo de Estado - exemplos: Rússia, China - (Utopia Comunista substitui a Utopia Burguesa que não cativava mais ninguém. Vide os romances de Charles Dickens sobre as condições miseráveis dos operários ingleses, expulsos dos campos para abastecer as indústrias nascentes – Londres, Manchester -  carentes de mão-de-obra)).

·         Primeira Guerra Mundial  (queda de muitas Potências Coloniais)

·         Segunda Guerra Mundial (fim do Império Britânico, ascensão dos Estados Unidos e União Soviética - Guerra Fria e Corrida Espacial)

·         “Milagres Econômicos” Alemão e Japonês  (Plano Marshall financiando a reconstrução da Ásia e da Europa – financiamento Norte-Americano para consumo de Produtos e Serviços dos EUA. E seus análogos, mais pobres, do lado de lá das Cortinas de Bambu (China) e de Ferro (URSS))

·         Primeiro Choque do Petróleo – o combustível do mundo deixando de ser “grátis”

·         Segundo Choque do Petróleo - o combustível do mundo torna-se muito caro - sua produção exige vultosos orçamentos militares para proteger as reservas, localizados em áreas com populações pouco amistosas para com o Ocidente (alguns exemplos: Arábia Saudita, Irã (Xá), Iraque, Venezuela)  (Parece que, em relação ao Petróleo, o Deus de Maomé é mais generoso que o de Moisés -  rs rs rs rs  J )

·         Queda do Muro de Berlim – Capitalismo de Estado, com Planejamento Centralizado, não consegue acompanhar as evoluções tecnológicas e sociais.

·         China flexibiliza Planejamento da Economia, buscando preservar Centralismo Político – “Não importa a cor do gato (se é vermelho ou não), desde que consiga caçar o rato”. Terá mais competência / sorte que a URSS? As tensões ambientais (saúde) e sociais (distribuição das benesses do “milagre econômico”) estão crescendo.

 “Milagre Econômico” – a realocação dos Investimentos Financeiros para regiões com menores restrições à produção do Lucro Máximo (Alguns fatores que contribuem: Fragilidade Sindical, Subsídios Tributários (Guerra Fiscal), Menor Regulamentação Ambiental / Social / Trabalhista)

Será que nós, a Sociedade Brasileira, podemos aprender algo de útil com esta reflexão?

Um abraço.

Claudio

Mensagem anterior
De: Claudio Estevam Prospero
Assunto: ECONOMIST.COM: Economia da China ultrapassa a do Japão em termos reais - "China e Índia foram as maiores economias do mundo por quase todos os últimos 2.000 anos" !!! - Angus Maddison

Economia da China
Alô América
Economia da China ultrapassa a do Japão em termos reais – 16/08/2010

CHINA tornou-se a segunda maior economia do mundo de acordo com dados divulgados nesta Segunda-Feira, 16 de Agosto.

A economia do Japão recuou para trás da chinesa no ranking de mercado de capitais, no segundo trimestre (vinha sendo a número três em termos de PIB por algum tempo).

Estes números não são exatamente comparáveis: os dados do Japão foram ajustados sazonalmente enquanto os dados da China não o foram.

Por outro lado, o Japão, provavelmente, será eclipsado logo, se já não o foi.

Dados compilados por Angus Maddison (ver figura anexa), um economista que faleceu no início deste ano, sugerem que China e Índia foram as maiores economias do mundo por quase todos os últimos 2.000 anos.

Por que elas recuaram tanto deve ser mais misterioso do que porque estão florescendo atualmente.

O texto acima é uma tradução de:


China's economy
Hello America
China's economy overtakes Japan's in real terms Aug 16th 2010

CHINA has become the world's second biggest economy according to data released on Monday August 16th. Japan's economy fell behind China's at market exchange rates in the second quarter (it has been number three in PPP terms for some time). These numbers are not strictly comparable: Japan's data have been seasonally adjusted while those for China have not. Quibbles aside, Japan will surely be eclipsed soon, if it has not been already. Data compiled by Angus Maddison, an economist who died earlier this year, suggest that China and India were the biggest economies in the world for almost all of the past 2000 years. Why they fell so far behind may be more of a mystery than why they are currently flourishing.






China torna-se a segunda maior economia do mundo

Programa também discute como a avanço da China afeta o Brasil.

Os epecialistas convidados Rubens Barbosa, Ricardo Martins, Antônio Corrêa de Lacerda analisam o avanço da China, que conseguiu ultrapassar o Japão e tornou-se a segunda maior economia mundial.

Segundo o ecomista Antônio Corrêa de Lacerda, o Brasil posiciona-se de forma dúbia diante da China, que promete dividir com os Estados Unidos o poder de influência na política internacional. Situação cambial brasileira será desafio para próximo governo.
Assista em:

quarta-feira, 21 de julho de 2010

No Brasil, TV digital ainda é para poucos - Custos da conversão - Pouca diferença (em relação à analógica) - Latifúndio e lentidão: “É um latifúndio digital”



No Brasil, TV digital ainda é para poucos

Jacson Segundo - Observatório do Direito à Comunicação

É certo que a admiração do brasileiro por futebol fez aumentar o consumo de televisores digitais no país. Projeções do Fórum SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre) indicam que apenas neste ano, impulsionadas pela Copa do Mundo, as vendas devem superar os 2 milhões de aparelhos (entre TVs, celulares e conversores digitais) vendidos até o fim do ano passado, fazendo com que esse número chegue a 8 milhões até o encerramento de 2010. No entanto, a política de expansão da TV digital no Brasil segue aquém do que se esperava. Parcela significativa da classe média segue alheia à digitalização e, para os mais pobres, esta sequer parece ser uma perspectiva.
Passados dois anos e meio da primeira transmissão em sinal digital no país, a população não tem encontrado motivos suficientes para adquirir um televisor com o receptor digital acoplado ou um conversor externo. Para o ministro das Comunicações, José Artur Filardi, a transição está ocorrendo sem muitos problemas. “Está normal e muito acima da expectativa”, considera. Os dados citados pelo ministério são que, no Brasil, a cobertura do sinal digital já está disponível em 38 cidades – entre elas, 21 capitais. Atinge uma área em que vivem 70 milhões de pessoas.

Porém, os 8 milhões de receptores que deverão estar em funcionamento até o fim do ano são menos de 10% deste total. Além disso, os números eventualmente divulgados pelo Fórum SBTVD ou pelos fabricantes não atestam, como se poderia crer, que o Brasil acelera o processo de digitalização da TV aberta. Pelo contrário, o que se observa é que a compra de televisores adaptados à tecnologia digital é feita por aqueles que querem aproveitar o serviço de alta definição oferecido pela TV por assinatura, da qual boa parte já é assinante. 

A Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) não tem dados que atrelem à venda das televisões com conversores ao número de assinantes de TV paga que possuem o serviço de HD (alta definição), mas o presidente da entidade, Alexandre Annenberg, diz que essa é uma constatação evidente. “Conheço muito pouca gente que tem [aparelhos] HD só para a TV aberta”, comenta.

Apesar da falta de levantamentos oficiais, não é preciso tanto esforço para perceber que o crescimento da venda dos grandes e caros televisores adaptados à tecnologia digital coincide com o aumento do número de pessoas que começaram a usar os serviços em HD na TV paga em 2010. A Net, por exemplo, informa que, nos primeiros três meses deste ano, houve um crescimento de 70% de assinantes que usam o HD em comparação com os últimos três meses do ano passado. A oferta da alta definição pela empresa existe desde o fim de 2007. 

O perfil do assinante de TV paga no Brasil é bem definido. Apesar de ter havido um aumento no número de assinaturas (10% este ano em comparação com os cinco primeiros meses de 2009) o serviço ainda não chega a 5% dos municípios e a 10% da população. Alem disso, continua concentrado nas classes A e B. De acordo com dados de 2008, a penetração da TV paga foi de apenas 9% na classe C. Em outras palavras, é este o perfil dos brasileiros e brasileiras que podem, hoje, assistir os canais de TV aberta com a qualidade e as funcionalidades prometidas com a criação do SBTVD.
Custos da conversão
Uma das razões para que a TV digital ainda se encontre nesse patamar é o custo gerado para o cidadão que, sem ser assinante de TV paga, queira adaptar-se à era digital. A aposta original do governo foi deixar a popularização dos set top box – os conversores externos que, conectados a qualquer televisor e uma antena UHF, recebem o sinal digital aberto – por conta das regras de mercado. A ideia é que o preço da “caixinha” fosse reduzido à medida que as vendas fossem aumentando e gerando escala de produção, o que não ocorreu.

Hoje, os conversores custam entre R$ 400 e R$ 600 - bem mais que os U$ 100 imaginados pelo ex-ministro das Comunicações Hélio Costa. Este é o valor mínimo a ser desembolsado por quem quer receber o sinal com melhor qualidade no seu atual televisor. Porém, para aproveitar o diferencial prometido pela TV digital – a alta definição – o investimento tem de ser bem maior.

Se a opção for trocar o aparelho por um novo, uma TV de 32'' com conversor embutido sai por cerca de R$ 1.700. Ainda assim, apesar de receber uma imagem com qualidade próxima a de um DVD, ela não opera em alta definição (Full HD). Para isso, é preciso que o consumidor adquira uma TV com resolução igual ou maior que 1920 pixels na horizontal por 1080 pixels na vertical, o que só é possível em aparelhos com 42'' ou mais.

Entre fazer um grande investimento para ter acesso a 5 ou 6 canais em HD ou gastar o valor de um salário mínimo para apenas receber estes canais sem sombras ou chuviscos, a grande maioria da população decidiu não aderir ao sistema digital. E governo e indústria do setor não estão se entendendo em relação à política de popularização da TV digital no país. 
Diante das vendas irrisórias de conversores, o governo anunciou no começo do ano uma adaptação da política industrial da Zona Franca de Manaus exigindo que as indústrias lá instaladas passassem a embutir conversores nos aparelhos HD ready (prontos para alta definição). Este ano, os modelos de 42 polegadas ou mais devem sair de fábrica com o conversor e, a partir do ano que vem, a exigência vale para todos os modelos produzidos.

De início, houve reclamação, mas as empresas de eletrônicos resolveram apostar no receptor embutido nos aparelhos do tipo HD ready (prontos para alta definição). É mais lucrativo vender um televisor de grandes proporções do que a caixinha. Agora, os poucos modelos de conversores existentes estão sumindo das lojas. 
Mudando novamente de ideia, o governo resolveu discutir um incentivo para a produção de conversores. De acordo com o ministro das Comunicações, José Artur Filardi, a preocupação maior do governo neste momento deve ser tomar iniciativas que consigam abaixar os preços dos conversores digitais. “O que a gente agora tem que se focar é em relação ao set top box. Realmente quem tem uma televisão que está em boas condições não vai jogar fora. Então a gente tem que ver se consegue através de incentivo ou qualquer medida possa popularizar mais o set top box”, afirma o ministro. 

Em reunião realizada na segunda-feira (21) com a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros), o assessor especial da Casa Civil André Barbosa afirmou que a meta é a elaboração de um programa que incentive a fabricação de 15 milhões desses aparelhos entre 2011 e 2013 voltados para as classes D e E – chegando a R$ 200,00. A contrapartida governamental seria a desoneração tributária (como PIS e Confins) dos produtos. A Eletros não quis se pronunciar sobre o assunto.

Curiosamente, a queda nos preços dos aparelhos poderá ocorrer mais por políticas criadas pelos países que vêm sendo convencidos pelo governo brasileiro a adotar o padrão tecnológico brasileiro (ISDB-T) como base para a digitalização da TV. A Argentina é o exemplo mais adiantado. Além de executar ações de fomento à produção, o governo argentino está distribuindo conversores digitais para a população de baixa renda. A ideia é distribuir 1,2 milhões de aparelhos antes do fim do ano. Naquele país, as transmissões começaram apenas no fim de 2009.
Pouca diferença

Além dos custos para a adaptação, há também um problema de cobertura do sinal em algumas cidades que já fizeram a transição para o digital, o que tem ocasionado reclamação e até devolução de conversores. Em municípios importantes como São Paulo e Rio de Janeiro existem áreas em que não é possível assistir à TV digital. Para resolver o problema, que pode se repetir em outros locais e especialmente em regiões acidentadas, é preciso que as empresas coloquem retransmissores para amplificar o sinal. “É um desafio, mas as emissoras estão investindo em retransmissores”, garante Liliana Nakonechnyj, coordenadora do módulo de promoção do Fórum SBTVD.

Mas a falta de interesse da população pela TV digital não passa apenas pelos altos preços dos aparelhos – sejam eles televisões, conversores ou celulares – ou a cobertura insuficiente. A inexistência de novidades significativas desestimula as pessoas a saírem da transmissão analógica. Duas delas seriam centrais para isso: a interatividade e a oferta de mais conteúdo. Ambas não fazem parte da realidade do projeto de governo e empresas para a digitalização.

A aposta do Brasil para a geração de recursos interativos interessantes é o software aberto Ginga, desenvolvido por pesquisadores brasileiros. Depois de anos de estudo, ele passou pela aprovação da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e, a partir desse reconhecimento internacional, sua implantação está sendo acelerada. No entanto, ainda não existem conversores com o Ginga integrado. Só algumas televisões com receptores internos contam com ele. Além disso, as emissoras ainda não estão produzindo muitos aplicativos de interação.

Outra questão em aberto é a forma com que a população vai interagir com a TV. O modelo mais simples é por meio do próprio controle remoto, a partir de opções disponíveis na tela. Porém, algo ainda muito aquém das possibilidades que podem surgir. Possivelmente, o uso do canal de retorno – que é o que permite a interação, inclusive com recursos próximos aos da internet – pode se dar pelo uso das redes de telecomunicações, como as de telefone fixo, móvel e internet. Se assim for, é provável também que essa será uma funcionalidade paga, o que pode ser mais um entrave para a popularização da TV digital. 

Outro detalhe determinante é que a digitalização não trará aos telespectadores mais e diversificados conteúdos, o que provavelmente geraria mais interesse. O padrão japonês adotado no Brasil – chamado de nipo-brasileiro pelo governo – permite que isso seja feito, já que ele possibilita a compressão do sinal. A quantidade de programações (canais) da TV aberta poderia ser multiplicada por quatro. No entanto, há dois problemas. 

O primeiro é que a distribuição de canais para serem usados pelas atuais emissoras transferirem suas programação para o sistema digital, feita a partir da publicação do Decreto 5.820/06, impede, na prática, a entrada de novos atores na TV aberta. Isso porque o tamanho da faixa destinada às emissoras no sistema analógico – de 6 Mhz – foi mantido para o sistema digital. Nesta largura de banda (o tamanho do canal), poderiam ser transmitidas pelos menos outras 4 programações. O decreto está sendo alvo de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), que deve ser julgada em breve pelo Supremo Tribunal Federal [
saiba mais].

A segunda questão é a regulamentação da multiprogramação. Até agora, a regra estabelecida pelo Ministério das Comunicações diz que apenas as emissoras exploradas pela União poderão lançar mão da multiprogramação. A medida casa com interesses da Rede Globo, que já manifestou seu desinteresse em usar tal recurso, já que a divisão de conteúdos poderia gerar dispersão de audiência e de arrecadação publicitária. Outras emissoras, como Bandeirantes e RedeTV!, pressionam pela liberação do uso do recurso exatamente para tentar fazer frente à Globo. Por enquanto, menos um motivo para ir às compras. 
Latifúndio e lentidão

O resultado das decisões governamentais é que as atuais emissoras que estão operando com o sinal analógico e o digital ao mesmo tempo não utilizam a maior parte dos 6 Mhz que receberam do governo para a transição do sistema. “É um latifúndio digital”, critica Arthur William, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social. E emenda: “A TV digital no Brasil não foi planejada. A postura do governo de deixar o mercado regulamentar é o erro. O empresário vai fazer no tempo dele. Para ele não é vantajoso acelerar agora.”

Para Arthur, é possível que, mantendo-se o atual ritmo, o Brasil não cumpra o prazo previsto para a transição completa para o sistema digital, que é 2016. “O que pode salvar esse prazo é a Copa de 2014 e as Olimpíadas, em 2012”, avalia. 
O professor de Comunicação da Universidade Federal de Sergipe César Bolaño acredita que o ritmo de transição segue lento como se previa. “Era natural que não houvesse demanda porque o modelo não é sensivelmente diferente do que já existe”, diz Bolaño.

Para ele, um processo de democratização da TV não está ligado necessariamente à tecnologia e sim ao modelo da comunicação no país. “O problema não é a TV digital é a TV aberta brasileira. Ela tem um modelo de funcionamento privado. A tecnologia não democratiza. A não ser que a TV pública consiga no campo digital o que não conseguiu na TV aberta”, opina César Bolaño. A tecnologia inclusive, segundo o professor, pode aprofundar as diferenças entre os grandes e pequenos veículos de comunicação. “Quanto mais tecnologia, mais custo. Ela tende a reforçar as posições de quem detém mais capital.”

O professor, porém, ressalta que a política do governo brasileiro de conquistar novos países para adoção do padrão nipo-brasileiro tem sido acertada. “O aspecto positivo é tentar criar uma condição sul-americana do ponto de vista industrial”, observa Bolaño. O último país para que o Brasil exportou seu padrão foi as Filipinas. Com isso, já são dez países que aderiram ao ISDB-T. A maioria deles está na América Latina. Até julho, a previsão é de que a África decida seu padrão e o governo brasileiro está em diálogo com alguns países do continente

Anatel faz esclarecimento sobre mudanças na TV paga - Band ataca: diz que abertura do setor de cabo sem licitação beneficia as teles

Anatel faz esclarecimento sobre mudanças na TV paga
| Por vcfaz.net | 21/7/10, 13:42 

A Anatel - Agência Nacional de Telecomunicações  divulgou nota de esclarecimento sobre as mudanças realizadas no mercado de TV por assinatura em resposta à reportagem exibida na última semana pela Band. Confira abaixo a íntegra da nota: 

"Em relação à reportagem divulgada pela TV Bandeirantes, em 19 de julho de 2010, no Jornal da Band, a Anatel apresenta os seguintes esclarecimentos: 

Grande parte das outorgas para exploração do Serviço de TV a Cabo no Brasil surgiu em 1996, advindas da conversão, sem ônus, das outorgas do antigo Serviço de Distribuição de Sinais de TV por Meios Físicos - DISTV, nas grandes cidades. As últimas outorgas se deram até 2001. 

Nestes mais de 10 anos, as prestadoras operaram praticamente sem competidores em seus municípios e puderam expandir o serviço, considerando o cenário econômico da época. O que se verificou, no entanto, é que a penetração da TV a Cabo no Brasil se mostrou insuficiente, atingindo cerca de 4,5 milhões de assinantes. Não foi alcançada a população de mais baixa renda e o serviço se restringiu aos grandes centros urbanos. 

O preço pago por parte das outorgas foi definido em licitação e outras tantas se deram sem custo. Mas, por se tratar de um serviço privado, os valores pagos são repassados aos preços cobrados pelo serviço aos consumidores e constituem uma das limitações para o atendimento de classes de mais baixa renda. 

Em recente decisão, a Anatel suspendeu o limite inicialmente estabelecido para a quantidade de prestadoras de TV a Cabo em cada município, visando atualizar o conhecimento sobre o mercado e o processamento dos cerca de 1.000 pedidos existentes de novas outorgas. A medida impulsionará o mercado e permitirá o atendimento de milhares de municípios até agora desassistidos. 

O preço de referência previsto na decisão, a ser pago pelas novas outorgas, busca observar o que tem ocorrido em outros serviços de telecomunicações igualmente relevantes para a sociedade, como o de telefonia fixa e de comunicação multimídia (serviço de banda larga), que não têm limitações para a entrada de competidores. 

A decisão da Anatel é parte de processo regulatório mais amplo de atualização da regulamentação de TV por Assinatura, a fim de ampliar a competição. 

Além dos benefícios para os consumidores decorrentes da ampliação da competição entre empresas, a medida da Anatel impulsiona a geração de empregos, a redução de desigualdades regionais, o desenvolvimento tecnológico, a ampliação da infraestrutura de suporte à banda larga, a indústria de entretenimento, sem contar com o aumento da receita de tributos arrecadados pelos Estados, como o ICMS, em razão de novas operações de TV a Cabo. 

Importante deixar claro que a decisão da Anatel não tratou da entrada de concessionárias de telefonia no mercado de TV a Cabo, tema que se mantém regido pela legislação e pelos contratos vigentes e que tem sido objeto de debate no Congresso Nacional, cabendo à Anatel regular o setor de telecomunicações nos estritos termos constitucionais e legais." 
Por vcfaz.net | 21/7/10, 13:42 

Band ataca cautelar da Anatel e diz que abertura do setor de cabo sem licitação beneficia as teles

Mariana Mazza - TeleTime News
21.07.2010

http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view&id=6924

Desde que a Anatel decidiu cautelarmente suspender o Planejamento de TV a Cabo e, assim, derrubar as barreiras de entrada para novos operadores do serviço, a medida tem ganhado publicamente mais críticos do que apoiadores. Um desses segmentos desconfiados dos resultados da ação resolveu partir para o ataque nesta segunda-feira, 19. As críticas foram apresentadas pela TV Bandeirantes, em matéria veiculada no Jornal da Band.

O foco de críticas da emissora foi o preço que a Anatel pretende cobrar pelas licenças de cabo a partir de agora. Já que a agência não irá mais fazer licitações, a escolha interna foi a de fixar como custo para a concessão o preço público, de R$ 9 mil. Pelos cálculos apresentados pela emissora, a emissão das licenças no novo sistema implantado pela agência renderá aproximadamente R$ 9 milhões.

O valor é 1% do total arrecadado pela União desde 1997, quanto foram realizados leilões de concessão de cabo. Nesses 13 anos, essas licitações renderam aos cofres públicos R$ 932 milhões em valores atualizados. A matéria aponta que, com esses recursos, o governo federal poderia "construir 25 hospitais de médio porte ou reformar completamente o estádio do Maracanã, deixando-o pronto para a Copa do Mundo de 2014".

Segundo a reportagem, a iniciativa da Anatel é um "golpe contra o contribuinte" e "quer conceder quase de graça licenças para comercializar o serviço". O objetivo seria beneficiar um pequeno grupo de empresários: as teles. "Além do rombo milionário na arrecadação pública, a proposta da Anatel tem endereço certo: as principais beneficiárias com as novas regras seriam as empresas de telefonia, que conseguiriam entrar no setor pagando quase nada por isso", afirma o repórter ao final da matéria.

Posição da Abert

O consultor da Abert, Gustavo Binenbojm, ouvido pela matéria, criticou a iniciativa. Vale lembrar que a Band é vinculada à Abra, e não à Abert, o que mostra um alinhamento dos radiodifusores nessa causa. "Ao contrário do que possa parecer, a medida da Anatel não tende a beneficiar a concorrência. Uma abertura indiscriminada e açodada pode na verdade favorecer uma grande concentração econômica no setor", analisou o advogado. O especialista em contas públicas, João Carlos Almeida, também apresentou ressalvas com relação à liberação do mercado de TV a cabo. "Nós temos que levar em consideração a responsabilidade fiscal. Porque um órgão regulador deixar de ter uma receita tão grande realmente é muito preocupante", comentou.

Pancada aguardada

Longe de ser apenas uma matéria crítica à iniciativa, a veiculação do material pela Band era aguardada pelo setor por simbolizar um posicionamento da emissora na disputa em torno da abertura do mercado de cabo. A própria Band deixou claro desde sexta-feira a importância da matéria que iria ser transmitida nesta segunda, por meio de inserções na programação. A expectativa do que seria divulgado causou apreensão dentro da Anatel durante todo o dia de hoje.

A Band prometeu ao final da matéria apresentar uma nova reportagem sobre o assunto nesta terça, desta vez destacando as críticas de deputados e senadores com relação à Anatel. Os parlamentares não estão nada satisfeitos com a condução do assunto pela agência reguladora. Nesta segunda, chegou à Anatel um requerimento do final de junho da Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Inovação do Senado listando uma série de perguntas sobre a legalidade da cautelar. O autor do requerimento é o senador Antônio Carlos Magalhães Júnior (DEM/BA), membro da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) do Senado Federal e dono de uma operadora de TV paga na Bahia (Bahiasat).

No documento, subscrito por outros senadores da CCT, o parlamentar questiona se a Anatel irá seguir a Lei do Cabo, ainda em vigor, e cumprir o que dizem os contratos de concessão assinados com as concessionárias de telefonia fixa. Ambos os documentos, em princípio, impedem que as concessionárias do STFC detenham licenças de cabo. Mas o fato de não haver mais limites ao total de outorgas por cidade, na prática, abre as portas para as teles.


segunda-feira, 5 de julho de 2010

O país, o povo e os bancos - País tem crescido / Condições da maioria da população têm melhorado / Compare com evolução dos indicadores do setor bancário

Análise & Opinião| 05/07/2010 | Copyleft

DEBATE ABERTO
O país, o povo e os bancos
O País tem crescido nos últimos anos a taxas razoáveis e as condições da maioria da população têm, igualmente, experimentado melhoria. Mas nada que se compare com a evolução observada com os indicadores do setor bancário.
Data: 05/07/2010

Paulo Kliass

O IBGE acaba de divulgar os primeiros resultados da sua importante Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). Os dados ainda deverão ser mais bem analisados, mas certamente surgirá uma quantidade enorme de artigos sustentando a tese da redução das desigualdades sociais e econômicas ocorrida no País em período recente, tal como analisei aqui no texto “Mito e realidade acerca da redução das desigualdades”.

O fato é que a metodologia da POF, a exemplo da PNAD, não nos permite uma avaliação adequada da distribuição de renda entre as classes sociais – ela opera com o conceito de níveis de rendimento. A partir de pesquisas junto às famílias, a enquete tem amplitude nacional e pode ser fundamental para o diagnóstico de um conjunto importante de políticas públicas. É o caso da habitação, da educação, da saúde, transportes, serviços públicos e padrões de consumo de forma ampla.


E ali, com certeza, estará identificada a melhoria das condições de vida da população mais pobre e a redução das disparidades, sempre considerada no interior de um conjunto que engloba as famílias de classe média, os assalariados e os por conta própria de baixa renda. Porém, o problema é que as informações relativas às famílias do topo da pirâmide social, a elite do famoso 1% mais rico não têm participação significativa e não autoriza conclusões mais contundentes a respeito do comportamento da concentração de renda entre os que muito têm e os que pouco recebem.


Uma das formas de avaliarmos qual o resultado efetivo da política de redução das desigualdades entre o capital e o trabalho, é a observação comparada de como evoluíram os indicadores do setor mais expressivo e mais estratégico das classes dominantes no capitalismo contemporâneo: o mundo das finanças. E no interior desse universo, tomaremos o caso das organizações mais antigas e mais simbólicas do mesmo - os bancos.

Como é amplamente reconhecido, a estruturação dos setores mais estratégicos e mais dinâmicos do capitalismo é caracterizada por elevado grau de concentração de poder de mercado. A velha fórmula de “poucos, grandes e fortes”, que se verifica em áreas como a indústria automobilística, de eletro-eletrônicos, de equipamentos militares, aeronáutica, telecomunicações, farmacêutica, etc, se repete também no perfil das instituições financeiras pelo mundo afora.


No caso brasileiro, o grau de concentração é, também, uma característica marcante do setor bancário. A particularidade está na presença, historicamente importante, do setor público na constituição do mesmo. Até a década de 90, o núcleo duro das instituições de crédito era constituído por bancos oficiais federais e por bancos pertencentes aos governos dos estados da federação. Com a privatização da maior parte desses últimos levada a cabo a partir daquele período e com a abertura à entrada de grandes conglomerados estrangeiros, a presença do Estado no setor se resumiu ao Banco do Brasil (BB) e à Caixa Econômica Federal (CEF), além do BNDES - organismo que não atua como banco de varejo, mas apenas como banco de negócios e de empréstimos com características específicas.


A magnitude do setor pode ser melhor avaliada a partir de seus próprios números. Não se assuste, pois as dimensões são realmente colossais. No final de 2009, o total dos ativos do sistema financeiro em nosso País chegava a R$ 3,6 trilhões. Exatamente isso; pouco mais de 15% do PIB, que alcançava R$ 3,1 trilhões. Os mais familiarizados com o tema farão o alerta: peraí, Paulo, mas no ativo dos bancos estão também contabilizados os valores das contas de depósitos. E esses valores não pertencem à instituição financeira, mas sim aos correntistas. De acordo, a idéia não era tirar nenhuma conclusão apressada dos números acima, mas tão somente oferecer aos leitores um panorama da importância do sistema e de sua dimensão na economia.


Caso tomemos os dados relativos ao conceito que se denomina “patrimônio líquido” dos bancos, ficaremos apenas com aquilo que é de propriedade efetiva da empresa financeira, sem a contagem dos valores dos depósitos dos correntistas. Nesse caso, os valores para o final de 2009 correspondem a quase 10% do ativo total: somam R$ 345 bilhões. E finalmente chegamos aos valores da conta “lucro líquido” do conjunto dos bancos para o exercício passado: R$ 31 bilhões. Esta é apenas uma das inúmeras fotografias possíveis para se visualizar o sistema, tirada há 6 meses atrás.


Além disso, é importante mencionar que, apesar do movimento de liberalização do setor e do crescimento da banca privada e multinacional, a presença do BB e da CEF continuou a ser expressiva no setor. Juntas, essas duas empresas do governo federal representam por volta de 30% dos ativos do sistema bancário, com uma participação de 25% nos lucros totais apropriados pelos bancos em 2009. Porém, a estratégia do governo não se utilizou de tal fato para tentar imprimir uma outra direção aos agentes do setor. Na verdade, pelo contrário, estimulou-se um doloroso processo de concorrência, com a adoção das regras típicas dos bancos privados.

Apesar de existirem quase 3 centenas de instituições bancárias no País, o fenômeno da concentração e da oligopolização é flagrante. Ainda com os dados relativos ao final do ano passado, os 5 maiores conglomerados (BB, Itaú, Bradesco, CEF e Santander - nesta ordem) concentravam 67% do ativo, ou seja, 2 em cada R$ 3 do total do sistema. E ainda 60% do patrimônio líquido e 59% do lucro líquido do conjunto dos bancos. Caso ampliemos um pouco a amostra e consideremos as 10 maiores instituições bancárias, os percentuais sobem para 76% dos ativos, 68% do patrimônio líquido e 65% do lucro líquido de todo o sistema.

Com isso, fica evidente que o padrão de competição de mercado no setor bancário não tem nada a ver com o “mercado da batatinha” – se a vegetal está muito caro numa barraca na feira, a dona de casa talvez consiga uma melhor relação qualidade/preço caso se disponha a percorrer alguns metros a mais pela rua. No caso das instituições financeiras, o poder dos agentes pelo lado da oferta é enorme e justamente por isso caberia, em tese, ao órgão regulador – no caso, o Banco Central - o papel de redução do abuso dos bancos. É o que se chama de “padrão assimétrico entre agentes de oferta e demanda”, situação em que os consumidores ficam impotentes e em absoluta desvantagem frente às instituições bancárias, tal como ocorre em casos como as telecomunicações, a eletricidade, os transportes, etc.


Por outro lado, a configuração bastante particular do quadro econômico e institucional de nosso País faz com que a vida de dirigente de banco não seja lá tão complexa ou arriscada. A permanência quase estrutural da elevada taxa de juros, definida pela autoridade monetária, assegura à gestão dos recursos disponíveis na tesouraria das instituições do sistema uma remuneração mínima já considerada “máxima” para os padrões internacionais. Por exemplo, com a taxa SELIC no patamar atual de 10,25% a.a. e a inflação em torno de 4,5% a.a., a rentabilidade mais baixa já se aproxima dos 6% anuais. Ou seja, se o banco não fizer nada mais, além do que comprar e vender títulos da dívida federal, ele consegue tal rentabilidade.


Além disso, a prática abusiva dos bancos – contando com a conivência e o silêncio do Banco Central - face a seus clientes e à sociedade, de forma geral, lhe permite obter outros ganhos seguros, a exemplo dos escandolosos níveis de “spread” praticados (espero conseguir tratar desse tema em artigo específico) nas operações e nos valores elevados das tarifas bancárias cobradas de forma indiscriminada.

Assim, o que se verifica é uma participação mais apetitosa, para dizer o mínimo, dos bancos na repartição do bolo obtido com o crescimento econômico recente. O País tem crescido nos últimos anos a taxas razoáveis e as condições da maioria da população têm, igualmente, experimentado melhoria. Mas nada que se compare com a evolução observada com os indicadores do setor bancário.


Entre 2003 e 2009 o salário mínimo saiu de R$ 240 e alcançou R$ 465, ou seja, uma elevação nominal de 94%. A remuneração média dos trabalhadores de São Paulo era de R$ 901 e saltou para R$ 1.302, ou seja, uma elevação nominal de 45%. O PIB brasileiro era de R$ 1,7 tri e elevou-se para R$ 3 tri, ou seja, um crescimento nominal de 77%. Caso utilizemos o conceito do PIB per capita, os dados nos apresentam o valor de R$ 9.500 no início do período e de R$ 16.400 no ano passado. Ou seja, um crescimento nominal de 73%.


Já as informações observadas no que se refere à performance do setor bancário superam em muito tais índices de crescimento. Os ativos totais saíram de R$ 1,3 tri e superaram os R$ 3,6 trilhões, significando um crescimento nominal de 177%. Os dados relativos ao patrimônio líquido somavam R$ 129 bi em 2003 e atingiram R$ 345 bi no ano passado, proporcionando uma elevação nominal de 167%. Finalmente, a rubrica do lucro líquido saiu de R$ 12,5 bi e atingiu R$ 31 bi, fazendo com que os bancos obtivessem um crescimento nominal de 148% nessas contas.


Uma das conclusões a que se pode chegar a partir da leitura de tal quadro é que o processo de crescimento econômico não é neutro por si só. Os diferentes setores buscam se defender e se apropriar dos excedentes gerados pela atividade econômica na sociedade. Se, por um lado, é inegável que houve avanços importantes pelo lado da melhoria das condições de vida da maioria do povo, por outro lado, é também inequívoco que as elites têm logrado se apropriar ainda mais - em um padrão superior à média - dos benefícios proporcionados pelo crescimento. Infelizmente, a experiência internacional mostra que, em boa parte dos casos, o crescimento econômico se faz acompanhar de um aumento das desigualdades.


Assim, deveria caber ao Estado um comportamento mais atuante no sentido de regular a atividade econômica e propiciar uma distribuição mais equânime dos chamados “frutos do crescimento” entre os diferentes setores, principalmente em favor dos que apresentam menor capacidade de pressão frente aos verdadeiros detentores do poder.

Pilhagem injusta: a razão estrutural da Grande Recessão é o que ainda assombra a América. Esta razão é explosão da desigualdade americana.

Economia| 05/07/2010 | Copyleft 
Pilhagem injusta
Não se trata de uma mera coincidência. Quando a maior parte dos ganhos do crescimento econômico fica com uma pequena fatia de cidadãos da elite, o resto não não tem o poder de compra para adquirir o que a economia é capaz de produzir. O salário médio dos EUA, ajustado à inflação, quase não mudou por décadas. Entre 2000 e 2007 ele na verdade despencou. Nessas circunstâncias, a única maneira da classe média manter seu poder de compra foi se endividando. A razão estrutural da Grande Depressão que ainda assombra os EUA é a explosão da desigualdade social. O artigo é de Robert Reich.
Robert Reich - The Nation
Data: 05/07/2010

O banditismo de Wall Street é a causa próxima da Grande Recessão, não sua causa de fundo. Mesmo se a “Rua” for melhor controlada no futuro (e eu tenho lá minhas dúvidas de que isso ocorrerá), a razão estrutural da Grande Recessão é o que ainda assombra a América. Esta razão é explosão da desigualdade americana.

Considere-se o seguinte: em 1928 os 1% dos americanos mais ricos recebiam 23,9% do total da renda nacional. Depois disso, a partilha dos 1% mais ricos declinou fortemente. As reformas do New Deal, seguidas pela Segunda Guerra Mundial, o G.I.Bill e a Great Society expandiram o círculo da prosperidade. Em fins dos anos 1970 os 1% mais ricos representavam apenas 8 a 9% do total da renda anual da América. Mas depois disso a igualdade começou a aumentar de novo, e a renda reconcentrou-se acima. 

Por volta de 2007 os 1% mais ricos estavam de volta aonde estiveram em 1928 – com 23,5% do total. As duas maiores quebras econômicas da América ocorreram nos anos imediatamente subsequentes a esses pontos máximos – em 1929 e em 2008. Não se trata de uma mera coincidência. Quando a maior parte dos ganhos do crescimento econômico ficam com uma pequena fatia de estadunidenses da elite, o resto não não tem o poder de compra para adquirir o que a economia é capaz de produzir. O salário médio dos EUA, ajustado à inflação, quase não mudou por décadas. Entre 2000 e 2007 ele na verdade despencou. Nessas circunstâncias, a única maneira da classe média manter seu poder de compra foi se endividando, como o fez com gosto. Enquanto os preços das moradias aumentaram, os americanos transformaram seus lares em caixas eletrônicos. Mas esse tipo de empréstimo tem limites. Quando a bolha da dívida finalmente explodiu, um vasto número de pessoas não pôde pagar suas contas, e os bancos não puderam receber.

A China, a Alemanha e o Japão certamente contribuíram para o problema, ao não conseguirem comprar de nós tanto como nós compramos deles. Mas acreditar que a nossa crise econômica contínua deriva principalmente de nossa balança comercial – compramos demais e poupamos pouco, enquanto eles fazem o oposto – é deixar de lado o maior desequilíbrio de todos. O problema não é que os americanos típicos tem gastado além dos seus ganhos. É que seus ganhos foram congelados junto ao que o crescimento da economia poderia e deveria poder fornecer-lhes.

Um segundo paralelo liga 1929 a 2008: quando os ganhos acumulam no andar de cima, as pessoas da elite investem sua riqueza em qualquer ativo que provavelmente atraia outros grandes investidores. Isso aumenta o preço de alguns ativos – commodities, ações, dot-coms ou investimentos imobiliários – que se tornam altamente inflados. Bolhas especulativas como essas explodem em seguida, deixando para trás montanhas de garantias sem quase valor algum.

A quebra de 2008 não se tornou uma Grande Depressão porque o governo aprendeu a importância de alimentar o mercado com dinheiro, resgatando assim temporarialmente alguns consumidores encalhados e a maioria dos grandes bancos. Mas o resgate financeiro não mudou a estrutura de fundo da economia. A média dos salários continua seu declínio e a elite continua a mexer na parte da riqueza do leão. É por isso que as classes médias ainda não têm o poder de compra necessário para levantar a economia, e porque a auto-proclamada recuperação será tão tépida - talvez levando até a uma segunda queda. Também é por isso que a América estará ainda mais vulnerável a bolhas especulativas e a explosões mais profundas nos próximos anos.

O problema estrutural começou nos fins dos anos 1970, quando houve uma onda de novas tecnologias (o transporte aéreo de cargas, os navios containeres e terminais, comunicações via satélite e, mais tarde, internet) que reduziram radicalmente os custos do trabalho no exterior. Outras novas tecnologias (automação, computadores e aplicativos de software ainda mais sofisticados) tiraram muitos outros empregos (Lembram dos caixas de banco? Dos operadores de telefones? Dos atendentes em postos de gasolina?). Nos idos dos anos 80 qualquer emprego que exigisse atividade repetitiva foi desaparecendo – indo para o exterior ou se tornando um software. Enquanto isso, ao passo que o pagamento da maioria dos trabalhadores achatava ou despencava, o pagamento dos socialmente bem conectados graduados em escolas de prestígio e programas MBAs – os assim chamados “talentos” que alcançaram o ápice do poder em suites executivas e em Wall Street – decolaram.

O que intriga é por que tão pouco foi feito para reverter essas forças. O governo poderia ter dado aos empregados mais poder de barganha para aumentarem seus salários, especialmente em idústrias protegidas da competição global e que requerem serviço pessoal: o grande comércio varejista, cadeias de restaurantes e hotéis, e assistência à criança e ao idoso, por exemplo. Redes de proteção social poderiam ter sido alargadas para compensar a ansiedade crescente frente à perda de empregos: seguro-desemprego cobrindo meio turno de trabalho, seguro salário frente à perda de poder aquisitivo, assistência na transição para novos empregos em novos lugares, seguro para comunidades que tenham perdido um grande empregador para que possam disputar novos empregadores. Com os ganhos do crescimento econômico a nação poderia ter oferecido assistência médica a todos, escolas melhores, educação fundamental e creche para as crianças, mais acessibilidade para as universidades públicas, mais transporte público de longo alcance. E se mais dinheiro fosse necessário, os impostos sobre os ricos poderiam ter aumentado.

Grandes e rendáveis companhias poderiam ter sido proibidas de demitir grandes números de trabalhadores de uma só vez, e poderiam ter de pagar indenização pela demissão – digamos, o equivalente a um ano de salário – para cada um que mandasse embora. As corporações cujas pesquisas fossem subsidiadas pelo contribuinte poderiam ter sido convocadas a criar novos empregos nos Estados Unidos. O salário mínimo poderia ter sido indexado à inflação. E os parceiros comerciais dos EUA poderiam ter sido estimulados a estabelecerem salários mínimos fixados à metade dos salários da classe média em seus países – assegurando assim que todos os cidadãos partilhassem os ganhos do comércio e que fosse criada uma classe média global que poderia comprar mais nossas exportações.

Mas começando no fim dos 70 e com um aumento fervoroso ao longo das décadas seguintes, o governo fez justamente o oposto. Desregulou e privatizou. Aumentou o custo público da educação superior e cortou o transporte público. Rasgou as redes de proteção social. Cortou pela metade o imposto de renda da elite, dos 70-90% que prevaleceram durante os anos 50 e 60 para 28-40%. Isso permitiu que muitos dos ricos do país tratassem sua renda como ganhos de capital sujeitos a não mais que 15% de taxação e escapassem também dos impostos sobre herança. Ao mesmo tempo, tanto a folha de pagamento como o estímulo ao consumo nos EUA sofreram um desfalque maior em função da diminuição da participação da classe média e dos pobres, do que dos bem remunerados.

As companhias foram autorizadas a cortar empregos e salários, aposentadorias e a transferir os riscos aos empregados (do 'você pode contar com sua aposentadoria', do “boa cobertura de saúde' ao aumento dos seguros de vida e deduções de benefícios). Eles quebraram os sindicatos e ameaçaram os empregados que tentaram se organizar. As maiores companhias se tornaram globais com não mais lealdade ou conexão com os Estados Unidos do que um serviço de GPS. Washington desregulou Wall Street enquanto o protegeu de grandes perdas, tornando a finança – que até recentemente servia à indústria da América – no seu senhor, exigindo lucros de curto prazo em vez do crescimento de longo prazo e arrastando uma porção ainda maior dos lucros do país. E nada foi feito para impedir que os salários dos executivos disparassem para mais de 300 vezes do que o de um trabalhador médio (de trinta vezes durante a Grande Prosperidade dos anos 50 e 60), enquanto o pagamento de executivos do mercado financeiro e de negociantes subiram a níveis estratosféricos.

É fácil demais culpar Ronald Reagan e sua laia republicana. Os democratas têm sido quase tão relutantes em atacar a desigualdade ou mesmo em reconhecê-la como o problema econômico e social central de nossos tempos. (Como Secretário de Trabalho da gestão Bill Clinton eu poderia saber). A razão é simples. Enquanto o dinheiro está aumentando também o está o poder político. Os políticos são mais dependentes do que nunca do dinheiro grande de suas campanhas. Washington moderna está longe de se afastar da Era de Ouro quando, tem-se dito, os lacaios dos barões do roubo literalmente depositem sacos de dinheiro nas mesas de legisladores amigáveis. O dinheiro de hoje vem na forma ou mesmo no aumento de doações de campanha de executivos das corporações e de Wall Street, seus ainda maiores pelotões de lobistas e suas hordasa de relações públicas propagandistas.

A Grande Recessão poderia ter levado a uma outra era de reformas fundamentais, assim como após a Grande Depressão. Mas o resgate financeiro reduziu demandas imediatas para reformas mais amplas. Obama pode ainda ter conseguido traçar um quadro acuradamente. Ainda assim, ao assegurar às pessoas que a economia voltaria ao normal ele perdeu uma oportunidade chave de expor o flagelo do aumento da desigualdade e seus perigos. Conter a crise financeira imediata e então afirmar que a economia estava em recuperação deixa as pessoas com uma idéia difusa dos problemas econômicos que ficam parecendo não relacionados entre si e inexplicáveis, como se um incêndio na cidade fosse enfrentado principalmente com uma conflagração, ao se proteger os grandes edifícios de escritórios enquanto deixa o resto da cidade cozinhando em fogo brando: falências domésticas, perda de empregos, diminuição da renda, insegurança econômica, aumentando o pagamento em Wall Street e nas suítes executivas.

A legislação para melhorar o sistema da assistência em saúde dos EUA [Healthcare] ilustra o paradoxo. Inicialmente, a nação estava fortemente favorável. Mas o presidente e os líderes democratas fracassaram em relacionar a reforma na saúde a uma agenda maior de distribuição ampla da prosperidade. Dessa maneira, como o desempergo cresceu ao longo de 2009, a população compreensivelmente voltou sua atenção à perda de empregos e diminuição de salários, frente aos quais a assistência em saúde parecia um problema menor. Consequentemente, o país não se mobilizou ativamente por uma reforma como seria necessário para enfraquecer o poder das grandes empresas farmacêuticas e das seguradoras privadas de saúde, que exigiram que qualquer assim chamada reforma melhorasse os seus próprios ganhos. A legislação resultante é dispensável para a direita, porque não controlaria adequadamente os custos e demanda que os estadunidenses paguem mais pelo seguro-saúde do que o fariam se o projeto não tivesse sido aprovado. Basicamente a mesma coisa ocorreu com os esforços para reformar o sistema financeiro. 

A Casa Branca e os líderes democratas poderiam ter descrito o maior objetivo como sendo a reconstrução das instituições econômicas que oferecem maior recompensa para relativamente poucos enquanto impõem custos e riscos extraordinários para todos os outros. Em vez disso, eles definiram o objetivo estreitamente: reduzir riscos para o sistema financeiro causados pelas práticas particulares de Wall Street. A solução então se estreitou num conjunto de consertos voltados a como a “Rua” deveria conduzir seus negócios.

Até o desastre no Golfo do México poderia ter sido apresentado num quadro mais amplo, de como corporações gigantes usam sua influência para capturar os reguladores e impôr os riscos e os custos à população, no exterior e a importância fundamental da saúde pública e da segurança ambiental para espalhar a prosperidade. Mas aqui de novo a administração e os líderes democratas fracassaram em conectar ambas as coisas. O desastre se tornou uma questão técnica a respeito de como interromper o vazamento de petróleo e uma discussão política de como regular a perfuração em águas profundas.

Se nada mais for feito, a guinada para a ampla desigualdade das últimas três décadas dos EUA é um convite aberto para um demagogo futuro que desconecte as questões, culpe os imigrantes, os pobres, o governo, as nações estrangeiras, os “socialistas” ou as “elites intelectuais” pelo crescimento das frustrações da classe média. O maior problema da hora do dia na política americana não estará mais entre democratas e republicanos, liberais ou conservadores. Estará entre ser do “establishment” e a população cada vez mais enlouquecida, determinada a “tomar a América de volta” deles. Quando eles entenderem onde isso leva, os interesses poderosos que até agora resistiram às reformas podem vir a perceber que a alternativa é muito pior.

Um pêndulo virtual sustenta a política econômica americana. Nós vamos de eras em que os benefícios do crescimento econômico eram concentrados em poucas mãos para um período em que os ganhos são distribuídos mais amplamente, e então voltamos ao estado inicial. Estamos nos aproximando do fim de um ciclo desses e do começo de um novo. A questão não é se o pêndulo vai voltar ao estado anterior, mas como ele vai se mover – se com reformas que aumentem o círculo de prosperidade ou se com a demagogia que faz a América dar as costas para o resto do mundo, encolhendo a economia e pondo os americanos uns contra os outros.

Nenhum de nós pode se desenvolver numa nação dividida entre um pequeno número de pessoas recebendo uma quantidade ainda maior da renda e da riqueza da nação, enquanto todo o resto recebe uma parte cada vez menor. A desigualdade não apenas diminui o crescimento econômico como também esgarça o tecido social de nossa sociedade. Os mais afortunados dentre nós, que alcançaram o auge do poder econômico e do sucesso dependem de uma economia e de um sistema político estáveis. Essa estabilidade repousa na confiança pública de que o sistema opera no interesse de todos nós. Qualquer perda dessa confiança ameaça o bem estar de todos. Escolheremos a reforma, eu acredito, porque somos uma nação com sensibilidade, e a reforma é a única opção sensível que temos.
(*) Ex-Secretário do Trabalho do governo Bill Clinton e Professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, Berkeley