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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Pilhagem injusta: a razão estrutural da Grande Recessão é o que ainda assombra a América. Esta razão é explosão da desigualdade americana.

Economia| 05/07/2010 | Copyleft 
Pilhagem injusta
Não se trata de uma mera coincidência. Quando a maior parte dos ganhos do crescimento econômico fica com uma pequena fatia de cidadãos da elite, o resto não não tem o poder de compra para adquirir o que a economia é capaz de produzir. O salário médio dos EUA, ajustado à inflação, quase não mudou por décadas. Entre 2000 e 2007 ele na verdade despencou. Nessas circunstâncias, a única maneira da classe média manter seu poder de compra foi se endividando. A razão estrutural da Grande Depressão que ainda assombra os EUA é a explosão da desigualdade social. O artigo é de Robert Reich.
Robert Reich - The Nation
Data: 05/07/2010

O banditismo de Wall Street é a causa próxima da Grande Recessão, não sua causa de fundo. Mesmo se a “Rua” for melhor controlada no futuro (e eu tenho lá minhas dúvidas de que isso ocorrerá), a razão estrutural da Grande Recessão é o que ainda assombra a América. Esta razão é explosão da desigualdade americana.

Considere-se o seguinte: em 1928 os 1% dos americanos mais ricos recebiam 23,9% do total da renda nacional. Depois disso, a partilha dos 1% mais ricos declinou fortemente. As reformas do New Deal, seguidas pela Segunda Guerra Mundial, o G.I.Bill e a Great Society expandiram o círculo da prosperidade. Em fins dos anos 1970 os 1% mais ricos representavam apenas 8 a 9% do total da renda anual da América. Mas depois disso a igualdade começou a aumentar de novo, e a renda reconcentrou-se acima. 

Por volta de 2007 os 1% mais ricos estavam de volta aonde estiveram em 1928 – com 23,5% do total. As duas maiores quebras econômicas da América ocorreram nos anos imediatamente subsequentes a esses pontos máximos – em 1929 e em 2008. Não se trata de uma mera coincidência. Quando a maior parte dos ganhos do crescimento econômico ficam com uma pequena fatia de estadunidenses da elite, o resto não não tem o poder de compra para adquirir o que a economia é capaz de produzir. O salário médio dos EUA, ajustado à inflação, quase não mudou por décadas. Entre 2000 e 2007 ele na verdade despencou. Nessas circunstâncias, a única maneira da classe média manter seu poder de compra foi se endividando, como o fez com gosto. Enquanto os preços das moradias aumentaram, os americanos transformaram seus lares em caixas eletrônicos. Mas esse tipo de empréstimo tem limites. Quando a bolha da dívida finalmente explodiu, um vasto número de pessoas não pôde pagar suas contas, e os bancos não puderam receber.

A China, a Alemanha e o Japão certamente contribuíram para o problema, ao não conseguirem comprar de nós tanto como nós compramos deles. Mas acreditar que a nossa crise econômica contínua deriva principalmente de nossa balança comercial – compramos demais e poupamos pouco, enquanto eles fazem o oposto – é deixar de lado o maior desequilíbrio de todos. O problema não é que os americanos típicos tem gastado além dos seus ganhos. É que seus ganhos foram congelados junto ao que o crescimento da economia poderia e deveria poder fornecer-lhes.

Um segundo paralelo liga 1929 a 2008: quando os ganhos acumulam no andar de cima, as pessoas da elite investem sua riqueza em qualquer ativo que provavelmente atraia outros grandes investidores. Isso aumenta o preço de alguns ativos – commodities, ações, dot-coms ou investimentos imobiliários – que se tornam altamente inflados. Bolhas especulativas como essas explodem em seguida, deixando para trás montanhas de garantias sem quase valor algum.

A quebra de 2008 não se tornou uma Grande Depressão porque o governo aprendeu a importância de alimentar o mercado com dinheiro, resgatando assim temporarialmente alguns consumidores encalhados e a maioria dos grandes bancos. Mas o resgate financeiro não mudou a estrutura de fundo da economia. A média dos salários continua seu declínio e a elite continua a mexer na parte da riqueza do leão. É por isso que as classes médias ainda não têm o poder de compra necessário para levantar a economia, e porque a auto-proclamada recuperação será tão tépida - talvez levando até a uma segunda queda. Também é por isso que a América estará ainda mais vulnerável a bolhas especulativas e a explosões mais profundas nos próximos anos.

O problema estrutural começou nos fins dos anos 1970, quando houve uma onda de novas tecnologias (o transporte aéreo de cargas, os navios containeres e terminais, comunicações via satélite e, mais tarde, internet) que reduziram radicalmente os custos do trabalho no exterior. Outras novas tecnologias (automação, computadores e aplicativos de software ainda mais sofisticados) tiraram muitos outros empregos (Lembram dos caixas de banco? Dos operadores de telefones? Dos atendentes em postos de gasolina?). Nos idos dos anos 80 qualquer emprego que exigisse atividade repetitiva foi desaparecendo – indo para o exterior ou se tornando um software. Enquanto isso, ao passo que o pagamento da maioria dos trabalhadores achatava ou despencava, o pagamento dos socialmente bem conectados graduados em escolas de prestígio e programas MBAs – os assim chamados “talentos” que alcançaram o ápice do poder em suites executivas e em Wall Street – decolaram.

O que intriga é por que tão pouco foi feito para reverter essas forças. O governo poderia ter dado aos empregados mais poder de barganha para aumentarem seus salários, especialmente em idústrias protegidas da competição global e que requerem serviço pessoal: o grande comércio varejista, cadeias de restaurantes e hotéis, e assistência à criança e ao idoso, por exemplo. Redes de proteção social poderiam ter sido alargadas para compensar a ansiedade crescente frente à perda de empregos: seguro-desemprego cobrindo meio turno de trabalho, seguro salário frente à perda de poder aquisitivo, assistência na transição para novos empregos em novos lugares, seguro para comunidades que tenham perdido um grande empregador para que possam disputar novos empregadores. Com os ganhos do crescimento econômico a nação poderia ter oferecido assistência médica a todos, escolas melhores, educação fundamental e creche para as crianças, mais acessibilidade para as universidades públicas, mais transporte público de longo alcance. E se mais dinheiro fosse necessário, os impostos sobre os ricos poderiam ter aumentado.

Grandes e rendáveis companhias poderiam ter sido proibidas de demitir grandes números de trabalhadores de uma só vez, e poderiam ter de pagar indenização pela demissão – digamos, o equivalente a um ano de salário – para cada um que mandasse embora. As corporações cujas pesquisas fossem subsidiadas pelo contribuinte poderiam ter sido convocadas a criar novos empregos nos Estados Unidos. O salário mínimo poderia ter sido indexado à inflação. E os parceiros comerciais dos EUA poderiam ter sido estimulados a estabelecerem salários mínimos fixados à metade dos salários da classe média em seus países – assegurando assim que todos os cidadãos partilhassem os ganhos do comércio e que fosse criada uma classe média global que poderia comprar mais nossas exportações.

Mas começando no fim dos 70 e com um aumento fervoroso ao longo das décadas seguintes, o governo fez justamente o oposto. Desregulou e privatizou. Aumentou o custo público da educação superior e cortou o transporte público. Rasgou as redes de proteção social. Cortou pela metade o imposto de renda da elite, dos 70-90% que prevaleceram durante os anos 50 e 60 para 28-40%. Isso permitiu que muitos dos ricos do país tratassem sua renda como ganhos de capital sujeitos a não mais que 15% de taxação e escapassem também dos impostos sobre herança. Ao mesmo tempo, tanto a folha de pagamento como o estímulo ao consumo nos EUA sofreram um desfalque maior em função da diminuição da participação da classe média e dos pobres, do que dos bem remunerados.

As companhias foram autorizadas a cortar empregos e salários, aposentadorias e a transferir os riscos aos empregados (do 'você pode contar com sua aposentadoria', do “boa cobertura de saúde' ao aumento dos seguros de vida e deduções de benefícios). Eles quebraram os sindicatos e ameaçaram os empregados que tentaram se organizar. As maiores companhias se tornaram globais com não mais lealdade ou conexão com os Estados Unidos do que um serviço de GPS. Washington desregulou Wall Street enquanto o protegeu de grandes perdas, tornando a finança – que até recentemente servia à indústria da América – no seu senhor, exigindo lucros de curto prazo em vez do crescimento de longo prazo e arrastando uma porção ainda maior dos lucros do país. E nada foi feito para impedir que os salários dos executivos disparassem para mais de 300 vezes do que o de um trabalhador médio (de trinta vezes durante a Grande Prosperidade dos anos 50 e 60), enquanto o pagamento de executivos do mercado financeiro e de negociantes subiram a níveis estratosféricos.

É fácil demais culpar Ronald Reagan e sua laia republicana. Os democratas têm sido quase tão relutantes em atacar a desigualdade ou mesmo em reconhecê-la como o problema econômico e social central de nossos tempos. (Como Secretário de Trabalho da gestão Bill Clinton eu poderia saber). A razão é simples. Enquanto o dinheiro está aumentando também o está o poder político. Os políticos são mais dependentes do que nunca do dinheiro grande de suas campanhas. Washington moderna está longe de se afastar da Era de Ouro quando, tem-se dito, os lacaios dos barões do roubo literalmente depositem sacos de dinheiro nas mesas de legisladores amigáveis. O dinheiro de hoje vem na forma ou mesmo no aumento de doações de campanha de executivos das corporações e de Wall Street, seus ainda maiores pelotões de lobistas e suas hordasa de relações públicas propagandistas.

A Grande Recessão poderia ter levado a uma outra era de reformas fundamentais, assim como após a Grande Depressão. Mas o resgate financeiro reduziu demandas imediatas para reformas mais amplas. Obama pode ainda ter conseguido traçar um quadro acuradamente. Ainda assim, ao assegurar às pessoas que a economia voltaria ao normal ele perdeu uma oportunidade chave de expor o flagelo do aumento da desigualdade e seus perigos. Conter a crise financeira imediata e então afirmar que a economia estava em recuperação deixa as pessoas com uma idéia difusa dos problemas econômicos que ficam parecendo não relacionados entre si e inexplicáveis, como se um incêndio na cidade fosse enfrentado principalmente com uma conflagração, ao se proteger os grandes edifícios de escritórios enquanto deixa o resto da cidade cozinhando em fogo brando: falências domésticas, perda de empregos, diminuição da renda, insegurança econômica, aumentando o pagamento em Wall Street e nas suítes executivas.

A legislação para melhorar o sistema da assistência em saúde dos EUA [Healthcare] ilustra o paradoxo. Inicialmente, a nação estava fortemente favorável. Mas o presidente e os líderes democratas fracassaram em relacionar a reforma na saúde a uma agenda maior de distribuição ampla da prosperidade. Dessa maneira, como o desempergo cresceu ao longo de 2009, a população compreensivelmente voltou sua atenção à perda de empregos e diminuição de salários, frente aos quais a assistência em saúde parecia um problema menor. Consequentemente, o país não se mobilizou ativamente por uma reforma como seria necessário para enfraquecer o poder das grandes empresas farmacêuticas e das seguradoras privadas de saúde, que exigiram que qualquer assim chamada reforma melhorasse os seus próprios ganhos. A legislação resultante é dispensável para a direita, porque não controlaria adequadamente os custos e demanda que os estadunidenses paguem mais pelo seguro-saúde do que o fariam se o projeto não tivesse sido aprovado. Basicamente a mesma coisa ocorreu com os esforços para reformar o sistema financeiro. 

A Casa Branca e os líderes democratas poderiam ter descrito o maior objetivo como sendo a reconstrução das instituições econômicas que oferecem maior recompensa para relativamente poucos enquanto impõem custos e riscos extraordinários para todos os outros. Em vez disso, eles definiram o objetivo estreitamente: reduzir riscos para o sistema financeiro causados pelas práticas particulares de Wall Street. A solução então se estreitou num conjunto de consertos voltados a como a “Rua” deveria conduzir seus negócios.

Até o desastre no Golfo do México poderia ter sido apresentado num quadro mais amplo, de como corporações gigantes usam sua influência para capturar os reguladores e impôr os riscos e os custos à população, no exterior e a importância fundamental da saúde pública e da segurança ambiental para espalhar a prosperidade. Mas aqui de novo a administração e os líderes democratas fracassaram em conectar ambas as coisas. O desastre se tornou uma questão técnica a respeito de como interromper o vazamento de petróleo e uma discussão política de como regular a perfuração em águas profundas.

Se nada mais for feito, a guinada para a ampla desigualdade das últimas três décadas dos EUA é um convite aberto para um demagogo futuro que desconecte as questões, culpe os imigrantes, os pobres, o governo, as nações estrangeiras, os “socialistas” ou as “elites intelectuais” pelo crescimento das frustrações da classe média. O maior problema da hora do dia na política americana não estará mais entre democratas e republicanos, liberais ou conservadores. Estará entre ser do “establishment” e a população cada vez mais enlouquecida, determinada a “tomar a América de volta” deles. Quando eles entenderem onde isso leva, os interesses poderosos que até agora resistiram às reformas podem vir a perceber que a alternativa é muito pior.

Um pêndulo virtual sustenta a política econômica americana. Nós vamos de eras em que os benefícios do crescimento econômico eram concentrados em poucas mãos para um período em que os ganhos são distribuídos mais amplamente, e então voltamos ao estado inicial. Estamos nos aproximando do fim de um ciclo desses e do começo de um novo. A questão não é se o pêndulo vai voltar ao estado anterior, mas como ele vai se mover – se com reformas que aumentem o círculo de prosperidade ou se com a demagogia que faz a América dar as costas para o resto do mundo, encolhendo a economia e pondo os americanos uns contra os outros.

Nenhum de nós pode se desenvolver numa nação dividida entre um pequeno número de pessoas recebendo uma quantidade ainda maior da renda e da riqueza da nação, enquanto todo o resto recebe uma parte cada vez menor. A desigualdade não apenas diminui o crescimento econômico como também esgarça o tecido social de nossa sociedade. Os mais afortunados dentre nós, que alcançaram o auge do poder econômico e do sucesso dependem de uma economia e de um sistema político estáveis. Essa estabilidade repousa na confiança pública de que o sistema opera no interesse de todos nós. Qualquer perda dessa confiança ameaça o bem estar de todos. Escolheremos a reforma, eu acredito, porque somos uma nação com sensibilidade, e a reforma é a única opção sensível que temos.
(*) Ex-Secretário do Trabalho do governo Bill Clinton e Professor de Políticas Públicas na Universidade da Califórnia, Berkeley

terça-feira, 29 de junho de 2010

Um furacão de austeridade paira sobre a Europa - "Reduzir gastos sociais para pagar credores"

Economia| 28/06/2010 | Copyleft 



Um furacão de austeridade paira sobre a Europa

"Reduzir gastos sociais para pagar credores" - que só visaram lucros e bonus - sem avaliar riscos. E, assim, gestaram a crise.


Ver: Um roteiro em dez passos de uma Crise Financeira 
http://sinapsesgaia.blogspot.com/2010/05/um-roteiro-em-dez-passos-de-uma-crise.html


O Fundo Monetário Internacional, depois de impor durante anos medidas duras de ajustamento das contas públicas aos países do sul, impõe agora as suas receitas neoliberais na Europa, diminuindo os direitos laborais em favor de políticas liberais que perpetuam o sistema capitalista. Por Jérôme Duval, Damien Millet e Sophie Perchellet, do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM).
Do Portal Esquerda.Net

A crise actual é o meio ideal para que o FMI aplique na Europa as suas receitas ultraliberais adulteradas, receitas essas que anda a impor aos países em desenvolvimento desde o início dos anos 80. Desautorizado durante três décadas de planos de ajustamento estrutural impostos brutalmente aos povos do sul, o FMI volta ao centro do jogo político a partir do momento em que o G20 se responsabiliza pela gestão da crise, em 2008.

O sul foi o primeiro campo de batalha. A Europa é agora a sua continuação. O FMI multiplica os empréstimos a alguns países europeus que se encontram em dificuldades para pagar uma dívida pública aumentada repentinamente devido à desaceleração económica e aos planos de salvamento de bancos, cuja desenfreada procura de lucros levou, justamente, a esta crise. Em 2007, a Turquia era o único país de envergadura que ainda batia à porta do FMI. Muitos outros países como o Brasil, a Argentina, o Uruguai, as Filipinas, etc., tinham cancelado antecipadamente a sua dívida com o FMI para se libertarem da sua incómoda tutela. O tempo das vacas magras foi ultrapassado e, em menos de um ano, o FMI já abriu uma linha de crédito para uma dezena de países europeus e intervém desde essa altura em múltiplas frentes.

Agora, a instituição vê que os seus lucros quadruplicaram durante o exercício de 2009-2010 (fechado em finais de Abril), mesmo sem ter em conta a venda de parte das suas reservas de ouro. Lucros que são de 534 milhões de dólares face aos 126 milhões de dólares do exercício anterior. Confiar a gestão da crise a um organismo que tira proveito dela a este ponto não deveria deixar os cidadãos tranquilos… Por outro lado, enquanto o Fundo impõe o congelamento, ou redução, dos salários um pouco por todo o lado, o seu director-geral, o socialista francês Dominique Strauss-Kahn «sofreu» um aumento superior a 7% desde a sua chegada, estabilizando no meio milhão de dólares/ano.


O primeiro país atingido foi a Hungria, antes da Ucrânia, Islândia e Letónia. Depois, em 2009, foram a Bielorrússia, Roménia, Sérvia, Bósnia e, mais recentemente, a Moldávia e a Grécia. A lista de países que solicitam empréstimos à instituição continua a aumentar e todos eles são obrigados a aplicar os planos de austeridade ditados pelos mercados financeiros, pelo FMI e pela União Europeia.

O impacto social desastroso sobre as populações recorda-nos os planos de ajustamento estrutural de sinistra memória, implantados a sul depois da crise da dívida de 1982. Estes planos de austeridade têm como objectivo uma forte redução dos gastos públicos, sem atingir o grande capital, a fim de arranjar os fundos necessários para reembolsar prioritariamente os credores.

A Hungria abre a dança dos ajustamentos

Em Outubro de 2008, foi aprovado um plano para a Hungria de 20 mil milhões de euros: 12.300 milhões emprestados pelo FMI, 6.500 milhões emprestados pela União Europeia e 1.000 milhões de euros emprestados pelo Banco Mundial. Além do crescimento automático do stock da dívida e da perda líquida, devido ao pagamento de juros, implantou-se uma série de condições severas para a população: aumento de 5 pontos no IVA, actualmente nos 25%; aumento da idade legal de reforma para os 65 anos; congelamento de salários para os funcionários públicos durante dois anos; supressão do subsídio de Natal para os reformados.

A Hungria, governada pelos sociais-democratas, tinha conseguido salvaguardar um sistema social bastante protector. O descontentamento da população em consequência da aplicação, sob a ameaça do FMI, dessas medidas de austeridade, beneficiou a direita conservadora que acusou os sociais-democratas no poder de terem transformado o país numa «colónia do FMI» (conforme escreveu o jornal conservador Magyar Nemzet). No entanto, a vitória do novo primeiro-ministro conservador Viktor Orban foi aclamada pela agência de notação financeira Fitch Ratings, que considera que o partido de Orban, o Fidesz, obteve a maioria necessária para modificar a Constituição e, por isso, «representa uma oportunidade para introduzir reformas estruturais».

Os sociais-democratas sofreram uma derrota histórica nas eleições legislativas de Março de 2010 e abriram as portas à extrema-direita, que entrou no parlamento pela primeira vez, com 16,6% dos votos.

Ucrânia sancionada pelo FMI

O FMI aprovou, em Novembro de 2008, um programa de resgate de dois anos para a Ucrânia que atingiu os 16.400 milhões de dólares. Até Maio de 2010, o país só tinha recebido 10.600 milhões de dólares da instituição. Porquê? Porque desde o aumento de 20% no salário mínimo, aprovado pelo governo anterior de Viktor Yúshenko em finais de Outubro de 2009, o FMI suspendeu a entrega de fundos. A visita de uma delegação ucraniana a Washington, em Dezembro de 2009, não resultou em qualquer alteração e o pagamento de uma nova fracção do crédito permanece bloqueado.

O último pagamento remonta a Julho de 2009, devido à falta de acordo de Kiev acerca das condições. O FMI fixou o défice orçamental previsto para 2010 em 6% do PIB, enquanto o governo propõe um défice de 10% para não ter de apertar tanto o cinto. Fortemente penalizada pela crise, a Ucrânia sofreu uma queda de 15,1% do PIB em 2009, e conseguir um défice de 6% em 2010, como exige o FMI, é uma missão impossível.

Enquanto espera, a Ucrânia teve de aprovar o aumento da idade da reforma e o aumento de 20% na tarifa do gás aos particulares, a partir de 1 de Setembro de 2009. Prevê-se uma privatização e recapitalização dos bancos. A privatização da fábrica química de fertilizantes de Odessa volta a estar sobre a mesa, apesar da sua importância estratégica para a região e para o Estado, e apesar de as críticas que podem ser feitas relativamente às suas práticas ambientais. O novo governo, formalizado em Março de 2010 com a eleição presidencial de Viktor Yanukóvich, propõe, entre as suas prioridades, continuar a solicitar ajudas ao FMI. Dessa forma, espera obter um plano de apoio de 19.000 milhões de dólares do FMI, depois de fazer o parlamento aprovar um orçamento para 2010 que prevê reduzir o défice até 5,3% do PIB, superior às próprias exigências do Fundo. A visita do FMI, no fim de Março de 2010, foi a oportunidade para se aproximar do novo governo com vista ao relançamento do crédito, acompanhado por futuras medidas de austeridade.

Grécia: berço da democracia

Enquanto a Grécia, sufocada por uma dívida recorde, batia à porta da União Europeia e do FMI (em princípio para um empréstimo de urgência de
45 mil milhões de euros, dos quais 15 mil milhões correspondiam ao FMI) a agência de notação financeira Standard & Poor’s diminuía (em três níveis) a nota da sua dívida, a 27 de Abril de 2010. Os mercados caem e os investidores especulam em baixa, acentuando a tendência.

O primeiro-ministro Papandreu declarava a 11 de Dezembro de 2009 que «os assalariados não pagarão por esta situação. Não procederemos à congelação ou à redução dos salários. Não chegámos ao poder para desmantelar o Estado social». No entanto, em 18 de Março de 2010 começou a ser minuciosamente elaborado um plano comum UE - BCE – FMI com o acordo do PASOK, o partido de Papandreu no poder, cuja contrapartida seria uma cura de austeridade sem precedentes, de modo a economizar, à custa do povo grego, 4.800 milhões de euros em Março de 2010 e, depois, mais 30 mil milhões em Maio, de acordo com um novo plano, com o objectivo de pagar aos credores.

No menu, o congelamento de contratações e a redução dos salários dos funcionários (corte substancial nos pagamentos extraordinários, diminuição dos prémios, apesar de uma anterior redução dos salários decidida em Janeiro de 2010); congelamento das pensões; aumento do IVA de 19% para 23% – apesar de se tratar de um imposto injusto que afecta maioritariamente os mais desfavorecidos –; aumento dos impostos sobre o álcool e o tabaco; redução drástica das despesas sociais, como a Segurança Social, etc.. Os direitos sociais são sacrificados no altar dos interesses da «elite tradicional local» e das despesas militares, o orçamento mais importante da UE, relativamente ao seu PIB. A população reagiu em força e organizou greves gerais (nos dias 10 de Fevereiro, 11 de Março, 5 de Maio e 20 de Maio de 2010) que paralisaram o país muitas vezes.

Os romenos também vêm para a rua

Juntamente com a Bulgária, a Roménia é um dos países mais pobres da União. Em Março de 2009, a Roménia obteve um empréstimo de cerca de
20 mil milhões de euros: 12.900 milhões correspondentes ao FMI, 5.000 milhões à UE, entre 1.000 e 1.500 milhões ao Banco Mundial e o restante a várias instituições, entre as quais figura o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD). Em troca, Bucareste comprometeu-se a reduzir o seu défice público de 7,9% do PIB em 2009 para 5,9%, mas ao considerar-se este objectivo não realista, fixa-se finalmente em 6,8% em 2010. No menu, mais do mesmo: congelamento de pensões e de salários com a manutenção do salário mínimo em 600 lei brutos (145 euros), supressão de 100 mil funcionários públicos em 2010, ou seja, 7,5% dos efectivos da função pública. Ali também a população se mobilizou contra as medidas de austeridade. A 19 de Maio, mais de 60 mil manifestantes concentraram-se diante da sede do governo no momento em que este reforçava o seu programa de ajustamento, ao anunciar uma redução de 25% no salário dos funcionários públicos e de 15% nos subsídios de desemprego e nas pensões, cujo mínimo é já de 85 euros.
Além disso, o governo prevê a redução por decreto dos subsídios às famílias, bem como das ajudas dadas aos deficientes, a partir de 1 de Junho de 2010. É novamente à custa dos mais pobres que se quer pagar a crise, evitando-se cuidadosamente onerar o capital: o imposto de sociedades caiu 9 pontos, passando de 25% em 2000 para 16% em 2009.

Os islandeses recusam-se a pagar

Antes da famosa nuvem de cinzas vulcânicas que paralisou o espaço aéreo europeu, em 2010, durante vários dias, a Islândia já tinha sido notícia de grande actualidade devido a uma grave crise em 2008. O desemprego tinha passado de 2%, em Outubro de 2008, para 8,2%, em Dezembro de 2009. O Estado salvou da falência os três principais bancos do país, endividando-se enormemente e não podendo, mais tarde, garantir o reembolso aos detentores britânicos e holandeses dos seus títulos. O povo islandês viu-se obrigado a pagar essa dívida mediante a lei Icesave, apoiada pelo FMI, e adoptada com enorme irresponsabilidade e deslealdade no último dia do ano de 2009, uma dívida que tinha servido para trazer novamente à tona os banqueiros culpados.

Depois de uma grande mobilização popular, a lei foi rejeitada por mais de 73% da população no referendo de Março de 2010. Um relatório da SIC (Special Investigative Commission) apresentado em Abril perante o parlamento, questionou a responsabilidade de alguns dirigentes dos grandes bancos e de membros do governo cessante, em particular a do anterior primeiro-ministro, na crise bancária de 2008. David Oddsson, que dirigia o Banco Central em 2008, fugiu justamente antes da publicação desse relatório e escapou assim à Justiça do seu país.


Quatro antigos dirigentes do Banco Kaupthing, entre eles o anterior Presidente-Director-Geral Hreider Mar Sigurdsson, foram detidos à sua chegada a Luxemburgo, onde residiam. Sigurdur Einarsson, presidente do conselho de administração, refugiado em Londres, tem também uma ordem de detenção, emitida pela Interpol.

Em conluio com o FMI, a União Europeia dita as suas vontades aos governos e impõe medidas bastante impopulares. Em Novembro de 2009, o parlamento europeu emprestou à Sérvia 200 milhões de euros; à Bósnia-Herzegovina, 100 milhões de euros; à Arménia, 65 milhões de euros de empréstimo e 35 milhões de euros de subvenção; e à Geórgia, uma subvenção de 46 milhões de euros.

Esmagados pela especulação sobre a dívida, antes mesmo da intervenção do FMI, os estados tomam a iniciativa e prevêem reformas anti-sociais em Espanha, Portugal, Irlanda, Itália… Por toda a parte estes tratamentos de austeridade espremem os salários e preservam o grande capital, responsável por este beco sem saída capitalista. Por toda a parte os povos se mobilizam e a única esperança reside precisamente nessa mobilização. É urgente, para todos os que querem resistir eficazmente à lógica capitalista, trabalhar pela unificação destas lutas.

http://www.diagonalperiodico.net/Un-huracan-de-austeridad-se-cierne.ht
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[Crise financ] Stiglitz: “Os governos deveriam criar seus próprios bancos”

Economia| 29/06/2010 | Copyleft


http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16748&editoria_id=7



Stiglitz: “Os governos deveriam criar seus próprios bancos”
O Fundo Monetário Internacional e o setor financeiro estão repetindo velhos erros que já prejudicaram a vida de milhões de pessoas na Argentina, Indonésia, Coréia e Tailândia, entre outros países, denuncia o economista Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia. É o clássico erro daqueles que confundem a economia de uma família com a de uma nação. Se uma família não pode pagar suas dívidas, recomenda-se que gaste menos para que possa fazê-lo. Mas uma economia nacional, se corta gastos, provoca a queda da atividade econômica, ninguém investe, cai a arrecadação, aumenta o desemprego e termina-se por ficar sem dinheiro para pagar as dívidas.
“Nos Estados Unidos entregamos ao sistema financeiro 700 bilhões de dólares. Se tivéssemos investido apenas uma fração dessa quantidade na criação de um novo banco, feríamos financiado todos os empréstimos que eram necessários”, disse Joseph Stiglitz em declarações ao jornalIndependent na segunda-feira. Se os bancos não emprestam, os governos deveriam criar seus próprios bancos e encomendar-lhes essa tarefa, propôs o prêmio Nobel de Economia.

Na verdade, seria possível fazer isso com muito menos: “Tomemos 100 bilhões, alavanquemos essa quantidade por um fator de dez a um (atraindo fundos do setor privado) e obteremos uma capacidade creditícia de um bilhão de dólares, mais do que a economia real necessita”, explicou Stiglitz. O problema nos EUA é que o estímulo fiscal não foi o necessário: “Consistiu em boa medida em cortes de impostos e quando se deu dinheiro aos bancos, foi para aqueles que não deviam ter recebido”. “A conseqüência de tudo isso é que não se restabeleceu a atividade creditícia. É previsível que este ano se embarguem dois ou mais milhões de casas do que no ano passado”, advertiu o economista.

Por trás dos ataques dos mercados financeiros a Grécia, primeiro, e depois contra a Espanha, o consenso parecer ser o de que os governos devem economizar, critica Stiglitz, que compara a situação atual a dos Estados Unidos durante a presidência de Herbert Hoover. Os governos, como o britânico, não só se negam a estimular a economia, como também se dedicam a cortar gastos públicos, como fez Hoover em 1929, com a conseqüência de o “crack” de Wall Street degenerou na Grande Depressão.

“Hoover acreditava que, quando se entra em recessão, aumentam os déficits, pelo que optou pelos cortes, e isso é precisamente o que querem agora os estúpidos mercados financeiros que nos meteram no meio dos problemas que enfrentamos agora”, assinalou o prêmio Nobel. Segundo Stiglitz, é o clássico erro daqueles que confundem a economia de uma família com a de uma nação. “Se uma família não pode pagar suas dívidas, recomenda-se que gaste menos para que possa fazê-lo. Mas uma economia nacional, se corta gastos, provoca a queda da atividade econômica; ninguém investe, diminui a arrecadação, aumenta o desemprego e termina-se por ficar sem dinheiro para pagar as dívidas”, explicou.

“Há muitos experimentos que demonstram isso graças a Herbert Hoover e ao Fundo Monetário Internacional”, disse ainda Stiglitz. Ele lembrou que o FMI aplicou essas receitas errôneas na Coréia, Tailândia, Argentina, Indonésia e muitos outros países em desenvolvimento nos anos 80 e 90. “Sabemos o que ocorre. As economias vão se debilitar, os investimentos cairão e se produzirá uma terrível espiral descendente”, assinalou, lembrando o que ocorreu com o Japão que experimentou uma receita similar em 1997, quando estava em vias de recuperação e acabou metido em uma nova recessão.

A resposta, enfatizou, não é reduzir o gasto público, mas sim redirecioná-lo: “Pode-se cortar o dinheiro que se gasta na guerra do Afeganistão. Pode-ser cortar várias centenas de bilhões de dólares desperdiçados no setor militar. Podem se reduzir os subsídios ao petróleo. Há muitas coisas que podem ser cortadas. E é preciso aumentar o gasto em outras áreas como a pesquisa e o desenvolvimento, a infraestrutura e a educação, todas elas áreas nas quais o governo pode obter uma boa rentabilidade de seus investimentos”.

Ainda segundo o economista, não há tampouco nenhuma razão pela qual não se pode aumentar em cerca de 40% os impostos sobre os lucros especulativos do setor imobiliário, por exemplo. Esse tipo de especulação, concluiu, não beneficia a sociedade e a terra vai seguir aí, independentemente de que a gente especule ou não. Em troca disso, poderíamos baixar o ônus que pesa sobre outras atividades como pesquisa e desenvolvimento.

Tradução: Katarina Peixoto

[Crise financ] Paul Krugman alerta para sinais de uma terceira depressão -

Economia| 29/06/2010 | Copyleft 

Paul Krugman alerta para sinais de uma terceira depressão
Receio que estejamos nos primeiros estágios de uma terceira depressão. A probabilidade é que ela seja mais parecida com a Longa Depressão do que com a Grande Depressão. Mas o custo - para a economia mundial e para milhões de vidas será ainda assim, imenso. E essa terceira depressão será resultado de um fracasso das políticas econômicas. Em todo o mundo - mais recentemente na desanimadora reunião do G-20 - os governos estão obcecados com a inflação, enquanto que a grande ameaça é a deflação, recomendando cortes de gastos, ao passo que o verdadeiro problema são os gastos inadequados. O artigo é de Paul Krugman.
As recessões são comuns, mas as depressões são raras. Até onde eu sei, apenas dois períodos da história econômica foram chamados na sua época de "depressões": os anos de deflação e instabilidade após o Pânico de 1873 e os anos de desemprego em massa após a crise de 1929 a 1931.

Nem a Longa Depressão do século 19 nem a Grande Depressão do século 20 foram períodos de declínio ininterrupto - pelo contrário, ambas tiveram momentos em que a economia cresceu. Mas esses episódios de melhoria nunca foram suficientes para desfazer os danos do choque inicial e foram seguidos de recaídas.

Receio que estejamos nos primeiros estágios de uma terceira depressão. A probabilidade é que ela seja mais parecida com a Longa Depressão do que com a Grande Depressão. Mas o custo - para a economia mundial e, acima de tudo, para os milhões de vidas arruinadas pela falta de empregos - será ainda assim, imenso.

E essa terceira depressão será resultado de um fracasso das políticas econômicas. Em todo o mundo - mais recentemente na desanimadora reunião do G-20 no último final de semana - os governos estão obcecados com a inflação, enquanto que a grande ameaça é a deflação, recomendando cortes de gastos, ao passo que o verdadeiro problema são os gastos inadequados.

Em 2008 e 2009, parecia que havíamos aprendido com a história. Diferente de seus predecessores, que aumentaram as taxas de juros para enfrentar a crise financeira, os líderes atuais da Reserva Federal e do Banco Central Europeu cortaram radicalmente os juros e voltaram-se para os mercados de crédito. Diferente dos governos do passado, que tentaram equilibrar os orçamentos para enfrentar a economia em declínio, os governos de hoje permitiram que os déficits aumentassem. E melhores políticas ajudaram o mundo a evitar o colapso total: Pode-se dizer que recessão resultante da crise financeira terminou no verão passado.

Mas os historiadores nos dirão no futuro que esse não foi o fim da terceira depressão, da mesma forma que a melhora econômica em 1933 não foi o fim da Grande Depressão. Afinal de contas, o desemprego - especialmente o desemprego de longo prazo - mantém-se em níveis que seriam considerados catastróficos há alguns anos e não parecem estar a caminho do declínio. E tanto os Estados Unidos quando a Europa estão prestes a cair na armadilha deflacionária que atingiu o Japão.

Perante perspectivas tão sombrias, esperávamos que nossos legisladores se dessem conta de que ainda não fizeram o suficiente para promover a recuperação. Mas não: Nos últimos meses, observou-se a volta de um comportamento espantosamente ortodoxo com relação a empréstimos e orçamentos equilibrados.

Podemos observar uma volta mais evidente desse tipo de comportamento em discursos na Europa, onde oficiais parecem estar se inspirando em Herbert Hoover para compor sua retórica, incluindo a afirmação de que impostos mais altos e cortes de gastos irão de fato expandir a economia através da segurança comercial. Na prática, no entanto, os Estados Unidos não estão muito diferentes. A Reserva Federal parece saber dos riscos da deflação - mas não se propõe a fazer nada para mitigá-los. A administração Obama sabe dos perigos de uma austeridade fiscal prematura - mas, já que os republicanos e democratas conservadores se negam a autorizar um auxílio maior aos governos estaduais, essa austeridade é inevitável e se manifesta através de cortes de orçamento estadual e municipal.

Por que então esse tropeço político? Os conservadores normalmente citam os problemas da Grécia e outros países europeus para justificar suas ações. É verdade também que os investidores de ações passaram a preferir os governos com déficits incontroláveis. Mas não há provas de que a austeridade fiscal repentina em face a uma economia em depressão ofereça alguma garantia a investidores. Muito pelo contrário: A Grécia optou pela austeridade severa e teve como resultado um aumento ainda maior da sua instabilidade; a Irlanda impôs cortes ferozes nos gastos públicos e foi tratada pelos mercados como um risco maior do que a Espanha, que até então havia sido mais relutante em aceitar a solução proposta pelos conservadores.

É quase como se os mercados financeiros conseguissem entender o que os legisladores não conseguem: apesar de a responsabilidade fiscal de longo prazo ser importante, o corte repentino de gastos em uma depressão, que aumenta mais ainda essa depressão e precede a deflação, é também uma estratégia autodestrutiva.

Por isso eu acho que a Grécia não é a culpada, nem a preferência realista por trocar empregos por déficits. Na realidade, tudo isso se resume a um conservadorismo que pouco tem a ver com análises racionais e cujo maior dogma é impor sofrimento ao povo para mostrar liderança em momentos de crise.

E quem pagará o preço pelo triunfo desse conservadorismo? Dez milhões de trabalhadores desempregados, muitos deles, inclusive, que ficarão sem trabalho por anos ou até mesmo pelo resto da vida.

(*) Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008.

Tradução: Terra Magazine

Versão original do artigo de Krugman no New York Times.

Outros artigos de Paul Krugman

A página pessoal do autor

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Lutemos para que o NING continue grátis / Ou não há alternativa? => Comprar e vender ideias - Desidério Murcho

Embora creia que o ning está fazendo isto por uma questão de Sustentabilidade: é uma Empresa, buscando Resultados Econômicos.

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: Oasis Santa Catarina <mail@oasissantacatarina.ning.com>
Data: 22 de abril de 2010 20:21
Assunto: Lutemos para que o NING continue grátis
Para:



9 meses para transformar o nosso mundo!

Uma mensagem a todos os membros de Oasis Santa Catarina

Que tal uma petição em formato de NING?? http://plskeepningfree.ning.com/


Em 15 de abril de 2010, Ning.com anunciou que iria descontinuar os seus
serviços grátis e se focar em Serviços Premiuns pagos. Eles afirmaram
que "Redes gratuitas existentes terão a oportunidade de ou se converter
para serviços premiuns pagos ou sairem do Ning."


Em resposta, vamos nos reunir na maior Rede Social que o Ning já viu!
Vamos mostrar que podemos nos unir em causas importantes como lutar por
uma maneira acessível/grátis de se juntar na Internet e trocar idéias e
opiniões por um mundo melhor!

Vamos fazer com que o TAMANHO dessa rede seja a própria petição.

Por favor se inscreva http://plskeepningfree.ning.com/ e compartilhe
com todas as redes NING que você participa e com todos os seus amigos.
 Levante sua voz! Lute pelo que acredita e deseja!!




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On April 15, 2010, Ning.com announced that it will be phasing out their
free service and focus on paid Premium Services. They stated that
"existing free networks will have the opportunity to either convert to
paying for premium services, or transition off of Ning."

In answer to that, Let's gather together in the biggest Social Network
that Ning ever seen. Let's show that we can stand together for
important question like a free way to gather ourselves in Internet and
exchange ideas and opinions for a better World.
Let's make the SIZE of this Network to be the petition itself!

Please Join in http://plskeepningfree.ning.com/ and share it in every Ning Network you participate and to all your friends.
Raise your Voice! Fight for what you believe and want!

__________________________________________________________________
Visite Oasis Santa Catarina em: http://oasissantacatarina.ning.com/?xg_source=msg_mes_network


Para controlar os emails que você receberá em Oasis Santa Catarina, clique aqui

Para refletir:

  •  a Wikipédia fez uma campanha gigantesca por doações há pouco tempo.
  •  a Google vive de propaganda. Parece que arrecada 70% das receitas de propaganda geradas na Internet, no mundo

Como contraponto, outra visão que nos ajude a pensar, vejam o artigo abaixo:

Ressaltei, em amarelo, questões importantes sobre o assunto Gratuidade na WEB.


2 de Março de 2009 · Opinião


Comprar e vender ideias

Desidério Murcho

Universidade Federal de Ouro Preto


Em plena segunda guerra mundial, quando o governo britânico pedia aos seus cidadãos imensos sacrifícios económicos, Orwell ficou chocado com a incongruência de jornais em que os editorialistas davam voz aos pedidos do governo, ao mesmo tempo que publicavam anúncios de casacos de peles, na mesma página. Esta imagem memorável ilustra um problema de fundo que poucas pessoas parecem compreender, sobretudo porque albergam preconceitos ideológicos relacionados com o comércio: é o problema do financiamento da cultura, da ciência, das artes, da filosofia e da informação. Não é possível pensar claramente neste problema enquanto se continuar a pensar de um modo aristocrático. 
Para o aristocrata, toda a transacção comercial é vil, e as coisas superiores da vida, nomeadamente as ideias, têm de se manter recatadamente afastadas do dinheiro. Hoje, pessoas protegidas desde muito novas por instituições públicas ou por grandes multinacionais, que sem sobressaltos lhes pagam a vida há décadas, podem dar-se ao luxo de ter, com a mesma hipocrisia dos aristocratas de antigamente, a mesma atitude de nojo perante o comércio.
Há razões a favor do actual modelo de financiamento fortemente estatal e burocratizado do trabalho intelectual envolvido nas artes, ciências e filosofia; mas também há razões contra. Uma delas sendo que os criadores perdem assim contacto com o seu público. Um grande pintor renascentista, por exemplo, tinha sempre viva a consciência de que dependia dos seus patronos, que lhes pagavam os quadros que pintava, lhes encomendavam trabalhos e lhes pagavam muitas vezes as despesas ou os alojavam em suas casas. Jonathan Le Cocq argumenta que este modelo tem vantagens sobre o modelo estatizado também por evitar que o artista produza obras que literalmente ninguém aprecia, nem vai alguma vez apreciar. É vantajoso que o artista tenha liberdade, mas também é desvantajoso que com essa liberdade o artista perca o contacto com os destinatários do seu trabalho.
A desvantagem estrutural do modelo fortemente estatizado de financiamento é alguns dos financiados perderem o sentido da realidade, caindo então na mentalidade aristocrática; e o problema da mentalidade aristocrática é que é uma mentira. As artes, as ciências, a filosofia e a informação precisam de ser financiadas pelo simples facto de que se o não forem só os ricos poderiam fazer essas coisas e nem sempre são os ricos que têm os talentos, os interesses e as energias para as fazerem. Se não abandonarmos a mentalidade aristocrática, e continuarmos a fingir que não são as pessoas que nos financiam a vida involuntariamente através dos impostos, somos incapazes de compreender o problema do financiamento, e por isso seremos incapazes de compreender o funcionamento de um jornal, por exemplo, como é o caso do Público. Porque um jornal como este não consome — qual lapa agarrada à rocha — os impostos involuntários das pessoas, depende inteiramente do financiamento que for capaz de gerar junto do seu próprio público leitor. Mas isto mostra-nos imediatamente a hipocrisia inerente dos seres humanos: ao mesmo tempo que muitos batem no peito pela informação de qualidade, quase ninguém está realmente disposto a pagá-la. De modo que um jornal tem de ser barato — muito barato — o que significa que depende de outras formas de financiamento: a publicidade. Isto dá origem à incongruência que chocava Orwell, pois os interesses dos anunciantes são insusceptíveis de serem compatibilizados com os interesses da informação de qualidade: tudo o que se consegue fazer é uma guerra fria, que consiste em encher o jornal de palermices que lhe permitem ter maior circulação, para então se conseguir encher as páginas de retratos de carros infalíveis e instituições bancárias que fazem todos os dias o milagre da multiplicação dos peixes. Conheço um só jornal com informação cultural de qualidade que não depende fortemente da publicidade, mas que por isso tem uma circulação muito reduzida e é muito caro: o maravilho TLS britânico. Uma andorinha não faz a primavera, e um caso isolado está longe de nos dar uma pista de como poderemos pôr fim à guerra fria.
O problema de fundo é uma injustiça fundamental da humanidade. Ao mesmo tempo que muitíssimas pessoas ganham, e muito, com avanços da ciência e com informação de qualidade, só uma pequeníssima minoria está realmente disposta a pagar essas coisas e a pagá-las caras. É muito mais fácil vender consolas de jogos do que jornais de qualidade, sapatos caros do que livros de filosofia, lingerie sexy do que pinturas de arte. Claro que as mesmas pessoas que raramente gastam 10% dos seus rendimentos em cultura ou ciência ou artes batem no peito dizendo que essas coisas são muito importantes, mas isto é só mais uma manifestação da profunda mentira humana, infelizmente tão comum.
Algumas pessoas, munidas de algo como um raciocínio deste género, não têm então hesitação em dizer que o modelo estatal de financiamento existe precisamente para tirar dinheiro às pessoas contra a sua vontade, através de impostos, para financiar o que elas na verdade se recusam a financiar voluntariamente — uma defesa, pois, do roubo iluminado. Mas esta certeza comunista nas maravilhas do financiamento estatal é apenas outra maneira de nos recusarmos a formular sequer o verdadeiro problema. Um passo nessa direcção é reconhecer que não é de modo algum desejável que os jornais, por exemplo, sejam exclusivamente financiados, ou até financiados em parte, com dinheiros públicos — porque sabemos que quem financia tem inevitavelmente poder sobre o que financia, e é demasiado perigoso para a saúde de uma democracia que o mesmo primeiro-ministro que mente e trapaceia tenha poder sobre o financiamento dos jornais que vão investigar e revelar as suas mentiras e trapaças.
Falei de um pensamento melancólico, que é a ideia de que um jornal se financia enchendo-se de palermices, para assim ter mais circulação e por isso mais publicidade. Outro pensamento melancólico, mas de polaridade oposta, é a palermice de pensar que podemos prescindir do jornalismo profissional porque agora temos os blogs, pá, olha que maravilha. O problema é que os blogs não são financeiramente viáveis: nenhum jornalista profissional poderia manter-se escrevendo notícias num blog, porque as pessoas querem ler os blogs de borla (ou ver — a esmagadora maioria das pessoas que entram num blog não lêem mais do que os títulos). E se o jornalista colocar publicidade no blog, fica outra vez na mesma situação que já conhecia com os jornais em papel: terá de enchê-lo de palermices, para ter milhares de visitas, sem as quais as receitas publicitárias não serão suficientes para o manter.
Os blogs escondem uma mentira económica fundamental da qual poucas pessoas se apercebem. Na verdade, os blogs são uma maneira de atrair para a Internet cada vez mais pessoas, e isso é do interesse dos actuais (quase) donos da Internet: o Google. Uma percentagem muito elevada da publicidade na Internet passa pelas mãos do Google, que gera milhões de dólares em receitas. A inovação do Google é olhar para o seu negócio de uma maneira integrada e não unitária. Outras empresas que tenham, por exemplo, cinco publicações, tendem a fechar as que não dão em si lucro e focam-se nas outras; depois, levam esta mentalidade para a Internet, e querem gerar receitas com cada linha de código que põem na Internet — quando isso não acontece, fecham esse site ou publicação ou serviço. O Google revolucionou as coisas e tornou-se dono quase absoluto da Internet porque passou a ver toda a Internet, desde logo, como sua. Por isso não lhe interessa se um serviço em particular gera directamente receitas — como os blogs — porque sabe que as gera indirectamente em qualquer caso, pelo simples facto de atrair cada vez mais pessoas para a Internet. Mesmo que um blog como o De Rerum Natura não tenha publicidade e por isso não gere receitas para o Google, atrai mais pessoas para a Internet que, depois de lerem este blog acabam por clicar noutras coisas e acabarão por clicar no que o Google quer que cliquem: publicidade. Nunca a palavra Web foi tão apropriada para a Internet; e neste caso a aranha paciente chama-se Google. Em internetês, "gratuito" quer dizer "dinheiro para o Google".
O modelo de financiamento da cultura que ocorre na Internet sofre da mesma perversidade do modelo de financiamento da cultura que ocorre nos jornais tradicionais: baseia-se na publicidade. A perversidade que isto introduz é a necessidade de publicar palermices, porque a verdade desagradável acerca da humanidade é que as palermices são muito mais populares do que tudo o resto. Quem pensa que vivemos num admirável mundo novo digital não vai querer aceitar que não há afinal assim tantas diferenças relativamente ao velho mundo indigital. Há diferenças, sem dúvida, e eu não quereria voltar aos tempos em que não havia Internet. Mas se nos recusarmos a olhar de frente para o problema do financiamento do jornalismo de qualidade, das artes e da cultura, da ciência e da filosofia, nada estaremos a fazer para resolver o problema da guerra fria. Defender que os livros devem ser distribuídos gratuitamente, na Internet, assim como os jornais, é aprofundar o problema da guerra fria e tornar o admirável mundo novo digital cada vez mais parecido ao pior que tem o velho mundo indigital: a dependência da publicidade, e com isso, dos grandes financiadores e das grandes empresas.
Mas qual é o problema de depender da publicidade, afinal? A maior parte das pessoas prefere usar o GMail gratuitamente, vendo publicidade todos os dias, do que pagar uns míseros 20 euros por ano pelo serviço — ao mesmo tempo que paga 50 euros por mês para ter acesso à Internet em casa. Num certo sentido, a publicidade é até benéfica: obriga os produtores de bens e serviços a fazer o que as pessoas realmente querem. Ou seja, obriga as televisões a fazer informação fantasiosa, populista e de má qualidade, porque é isso que as pessoas preferem; obriga as empresas de revistas e jornais a publicar cinco revistas de palermices, para ganhar dinheiro e conseguir financiar uma revista com informação de qualidade, e obriga os jornais de qualidade, como o Público, o Expresso, o Sol ou o Diário de Notícias, a publicar na sua maior parte palermices, para poderem chegar a um número maior de pessoas. Qual é o problema? A publicidade é o grande soro de verdade da humanidade, corroendo todas as hipócritas declarações de amor fiel às artes, à informação de qualidade, à filosofia e às ciências.
O problema é pensar que temos uma resposta razoável para o problema do financiamento da informação de qualidade, da cultura, da filosofia ou das ciências. Não temos tal coisa. Temos modelos maus, uns menos maus do que outros, mas ninguém tem um modelo bom. E não o teremos jamais se todos assumirmos uma atitude de nojo aristocrático pelo dinheiro, pela compra e pela venda de serviços e bens que envolvam ideias. Estaríamos a dar um passo de gigante na direcção certa se assumíssemos que queremos vender informação de qualidade, artes, filosofia, ciência, aulas. Porque aí veríamos que o problema é encontrar quem realmente queira comprar isso que queremos vender, ao invés de se limitarem a bater hipocritamente no peito dizendo que muito valorizam essas coisas — desde que não tenham de abrir a carteira.
A mentalidade aristocrática tem hoje uma expressão notável em subgrupos que fazem da Internet e do digital a sua vida principal, desacompanhados de qualquer vestígio de tino económico. Os grupos religiosos de apoio ao Linux, ao Open Office e a tudo o que seja software, produtos ou serviços digitais gratuitos são particularmente fascinantes. A maior parte das pessoas não conhece o Linux, nem o Open Office, e só muito recentemente passaram a conhecer, algumas delas, uma coisa chamada Firefox, e que é um navegador alternativo ao Internet Explorer — que a esmagadora maioria das pessoas conhece porque já está instalado nos computadores que compram, juntamente com o ubíquo Windows da Microsoft. Este desconhecimento deveria ser suficiente para os religiosos do Linux pensarem outra vez na sua Weltanschauung, mas como Popper se apercebeu ao falar com os marxistas e os psicanalistas, o dogma tem sempre razões que a razão desconhece, e uma capacidade acrobática para transformar negativo em positivo, branco em preto, e refutação em confirmação. O Linux é um sistema operativo gratuito alternativo ao Windows. Mas então como se dá o extraordinário milagre económico de as pessoas preferirem comprar o Windows, em vez de usar um sistema operativo gratuito?
A resposta dos religiosos é que isso só acontece porque o Windows já vem instalado nos computadores que as pessoas compram. Isto é mentira porque em muitos países, como no Brasil, já se compram há bastante tempo computadores mais baratos, com o Linux instalado — e as pessoas levam-nos para casa, desinstalam rapidamente o Linux e instalam o Windows. Mas mesmo que fosse verdade que a razão de ser da falta de penetração do Linux fosse esse aspecto da distribuição, seria necessário compreender por que raio o Linux não está mais presente nos computadores que as pessoas compram nas lojas. Ao fim ao cabo, se eu estou a vender computadores, consigo vender mais barato um computador com Linux do que o mesmo computador com Windows, porque não tenho de pagar o Linux, mas tenho de pagar o Windows. O que acontece é que as pessoas preferem realmente o Windows ao Linux, e por uma razão simples: quase não hásoftware para o Linux. E é aqui que está o busílis: não há mais software para Linux porque os religiosos do Linux têm a mentalidade aristocrática de que o software, como todo o produto do trabalho intelectual, deve ser gratuito. E consequentemente, poucos engenheiros podem fazer software para o Linux, porque não poderiam viver disso. No meu trabalho, por exemplo, uso crucialmente vários programas de software que comprei e que não existiria se outras pessoas não os comprassem, porque nesse caso os engenheiros não os poderiam fazer.
De modo que os fanáticos do Linux dificilmente poderão ter uma resposta para o problema do financiamento da informação de qualidade, da filosofia ou das ciências, pois a resposta inane que têm para o problema do financiamento do seu próprio trabalho é que devem ser todos empregados do estado ou de grandes multinacionais como a Adobe, Microsoft, Mozilla Corporation, Sun, etc., para depois então poderem dar de borla o que fizerem nessas empresas ou nos fins-de-semana melancólicos, nos intervalos de um joguinho emocionante. Não se compreende é como essas empresas que os empregam vão ganhar dinheiro se também os seus programas informáticos forem todos distribuídos gratuitamente, e tal modelo de negócio nunca vingou. Há umas ideias vagas de o engenheiro andar a fazer de moço de recados, dando assistência técnica a quem usa os produtos que escreveu tão mal que tem de ser chamado de hora a hora por meio planeta fora para desencravar os seus clientes que queriam ao invés poder usar um bom software sem terem de depender dos solícitos engenheiros.
Significativamente, o Firefox é o grande sucesso desta mentalidade aristocrática. Significativamente porque só conseguiu vingar quando se associou ao Google e passou então a receber dinheiro da publicidade vista nos computadores que usam o Firefox. Ou seja, é outra vez o velho mundo indigital: o Firefox depende financeiramente da publicidade, o que significa que depende de grandes companhias com o Google, que a gere, ao mesmo tempo que se apresenta mentirosamente como um rebelde contra as grandes companhias como a Microsoft. Mas esta mentira serve os seus propósitos: ao passo que nenhum engenheiro mentalmente saudável estaria disposto a trabalhar para a Microsoft sem esta lhe pagar, a Mozilla Corporationconta com o trabalho voluntário de milhares de engenheiros papalvos. É a nova economia digital, da qual aWikipedia é o paradigma: quem ganha dinheiro são alguns tubarões que, agitando o isco da gratuitidade, conseguem viver da Wikipédia porque milhares de voluntários papalvos trabalham gratuitamente para eles. A ilusão, claro, é que não estão a trabalhar para os tubarões da Wikipédia ou da Mozilla Corporation, mas para as pessoas comuns poderem ter um produto gratuito de qualidade. Esta ilusão, contudo, mostra como o problema fundamental do financiamento se oculta facilmente: se as pessoas realmente prezassem o trabalho desses voluntários, estariam dispostas a pagar-lhes directamente, ainda que uns poucos euros por ano, para que pudessem fazer um trabalho melhor e genuinamente independente quer de tubarões quer de publicidade. De modo que este modelo de financiamento apenas oculta o verdadeiro problema que urge enfrentar: a hipocrisia que faz as pessoas bater no peito dizendo que uma enciclopédia, por exemplo, é muito importante, ao mesmo tempo que se recusam a pagar a quem a faz.
Os efeitos económicos desta mentalidade são desastrosos. Imagine o leitor que é engenheiro informático e que tem uma ideia revolucionária para fazer um navegador para a Internet, um leitor de emailou uma aplicação do género do Office. Não conseguirá fazer seja o que for sem um séquito de investidores atrás de si, advogados, secretárias, e uma qualquer grande companhia por detrás, tal e qual como vinte jornalistas são incapazes no mundo indigital de ontem ou no mundo digital de hoje de fazer um jornal independente de todas essas coisas. Contudo, se não fosse a mentalidade aristocrática que estimula a hipocrisia das pessoas, que querem usufruir sem pagar do trabalho dos outros, isso seria hoje possível. Se o leitor for um engenheiro informático com uma ideia que funciona, poderia colocar uma primeira versão à venda, barata, no seu site. Com essas receitas, poderia desenvolver melhor o seu trabalho e vender uma segunda versão ao fim de um ano de trabalho compensador. E assim poderia viver directamente do seu trabalho, vendendo-o directamente a quem dele usufrui. O mesmo aconteceria com um grupo de jornalistas — facilmente poderiam manter-se a si próprios, independentes dos grandes financiadores e da publicidade, se o jornal fosse vendido pela Internet, a um preço ridiculamente baixo. Mas nada disto pode hoje acontecer porque o leitor teria de concorrer com produtos gratuitos análogos que são apoiados por grandes corporações, incluindo corporações que gerem a publicidade, como o Google. É pura e simplesmente impossível concorrer com o New York Times, porque é gratuito, ou com o Open Office, ou com o Linux.
As regras do jogo no maravilhoso mundo digital são iguais às regras do jogo do velho mundo indigital: a independência económica de pequenos criadores é uma ilusão, a dependência das grandes corporações financiadoras e da publicidade e dos interesses políticos é um facto. A única novidade introduzida pela nova economia digital é o trabalho gratuito de milhares de pessoas iludidas com as cantigas de bandido da mentalidade Linux.
Claro que há um argumento de fundo que está aqui em causa: o sonho de uma economia sem dinheiro, uma economia verdadeiramente comunista, onde as pessoas trabalhariam pelo gosto de fazer o que fazem e trocariam isso que fazem por outras coisas que outras pessoas fariam igualmente por gosto. Ninguém precisaria de comprar coisa alguma, e seria um regime de liberdade económica das grandes corporações. Afinal, há razões para pensar que a economia baseada no dinheiro é uma forma primitiva de economia.
O problema é que ninguém tem um modelo alternativo de economia, que não se baseie no dinheiro. E quando a nossa vida está largamente inserida numa economia baseada no dinheiro, toda a ilha económica sem dinheiro é uma mentira: significa apenas que alguém paga e alguém é explorado e alguém fica a perder, mas nada disso é visível. Evidentemente, quem é pago por gigantes económicos — universidades, corporações, grandes empresas — e recebe certinho o seu ordenado ao fim do mês, sem flutuações relacionadas com mais ou menos vendas, mais ou menos público, melhor ou pior trabalho, perde facilmente contacto com a dura realidade económica que qualquer merceeiro ou dono de restaurante tem: ou as pessoas nos pagam o que fazemos para elas, ou temos de mudar de ramo.
O problema do financiamento de actividades impopulares — cultura, informação de qualidade, filosofia, ciências — poderia ser parcialmente resolvido se não existisse a mentalidade aristocrática, que aprofunda e aplaude a atitude das pessoas que querem usar a Internet como usam a televisão aberta: sem a pagar directamente, mas pagando-a através da publicidade. Se as minorias realmente interessadas em informação de qualidade estivessem dispostas a pagar 5 euros por mês para ler um bom jornal na Internet, por exemplo, quaisquer dez jornalistas ou menos poderiam fazer tal coisa. E depois poderiam existir vários jornais em competição e os melhores teriam mais leitores de qualidade e poderiam ficar ainda melhores, sempre independentes dos grandes financiadores e dos tubarões da publicidade. Mas as coisas não são assim — e não vão ser assim. Fazer um trabalho informativo de qualidade vai continuar a ser uma guerra fria entre a qualidade e a palermice, em que no meio de muitas páginas com palermices para atrair papalvos que clicam na mentira da publicidade, se consegue de vez em quando inserir um bom trabalho, genuinamente informativo. A situação é infeliz, mas nada se pode fazer excepto explicar as coisas como elas são, para que os discursos da mentira não sejam tão prevalecentes quanto o são actualmente.
Recorde-se três pragas da nossa vida digital de hoje: o spam, ou correio electrónico insolicitado, os vírus e o adware. Em todos estes casos o que está em causa são formas particularmente agressivas de publicidade — a única maneira de financiar a nossa vida digital se os preconceitos aristocráticos de pagar o trabalho intelectual persistirem. No caso do spam trata-se de pessoas que se dedicam a enviar milhões deemails para o maior número possível de endereços, porque basta que uma pequeníssima percentagem de papalvos clique num daqueles anúncios para que a actividade seja lucrativa. O princípio é por isso o mesmo que alimenta o Google: faz-se algo que a maior parte das pessoas não paga, nem directamente, por subscrição, nem indirectamente por clicar na publicidade, mas isso é irrelevante porque algumas pessoas acabam por clicar na publicidade. É o verdadeiro conceito de Web, uma vez mais.
spam, por outro lado, está intimamente associado aos vírus, pois muitos dos vírus têm por fim controlar os computadores das vítimas, para os pôr a enviar emails com spam, sem que as suas vítimas tenham conhecimento do caso. Finalmente, o adware foi uma invenção desesperada de engenheiros informáticos que, incapazes de competir com o software gratuito, inventaram a ideia de pôr publicidade no próprio software, tal e qual como temos nos jornais e revistas e na televisão aberta e no Google. Mas por várias razões, nenhuma delas boa, o conceito foi fortemente criticado, e acabou por ser visto como uma espécie de vírus, apesar de se aceitar tranquilamente coisas como o Firefox, que na verdade é uma forma evoluída de adware.
Ninguém sabe quais serão os caminhos do nosso futuro digital. Os livros são das poucas coisas da nossa vida que hoje em dia são honestas, no sentido em que são exclusivamente pagos por quem os lê, não têm publicidade e os editores pagam aos autores, permitindo-lhes viver da escrita. Ninguém sabe por quanto mais tempo isto irá ser possível. Do ponto de vista da ideologia aristocrática, é um crime pagar vinte euros por um livro, sendo uma percentagem desse dinheiro para sustentar o autor, se esse livro for inteiramente digital e facilmente copiável, porque só é legítimo pagar coisas como hortaliças e folhas de papel, mas não romances, poemas ou ensaios. O sistema de financiamento do trabalho intelectual, no velho mundo indigital, tinha coisas muito más e outras boas; gerou jornais e revistas palermas e muita palermice nos jornais e revistas que não são palermas, mas permitiu também que romancistas, ensaístas e outros intelectuais vivessem da venda do seu trabalho, ao invés de dependerem de um emprego numa grande empresa ou numa universidade. Gerou muito jornalismo palerma, mas também gerou jornalismo de alta qualidade. Como tudo na vida, o velho mundo indigital tinha coisas boas e coisas más. É de crer que o novo mundo digital terá coisas boas e coisas más, mas os aristocratas do freeware querem fazer-nos crer que só terá coisas boas, ao mesmo tempo que a teia do Google, com a sua publicidade planetária, nos envolve cada vez mais. Há razões para pensar que a habitual mentira de nós para nós se intensifica porque gostamos de puxar umas coisas da Internet, legais ou não, sem pagar, encontrando então depois umas racionalizações tanto mais palermas quanto mais complexas são.
Um conceito lunático curioso é que um escritor pode chegar à Internet, oferecer os seus livros de graça e depois pedir por favor, por graça do Espírito Santo, dêem-me qualquer coisita para comer. A ideia é que as pessoas são generosas, e pagam o que consomem. Evidentemente! É por isso que não há empresas de segurança e podemos entrar numa loja, pegar numa televisão e sair porta fora sem pagar, que ninguém nos diz coisa alguma: as lojas estão feitas de maneira que quem quiser pagar, paga, pois as pessoas são generosas e honestas. Para lá da ironia, este conceito lunático é outra forma de não compreender o problema fundamental do financiamento da cultura, da ciência ou até de coisas mais obviamente úteis para toda a gente como a medicina. Se as pessoas pudessem escolher pagar ou não impostos para financiar a medicina, quase ninguém escolheria pagar tal coisa, apesar de correrem o risco óbvio de ficarem doentes no futuro e depois não poderem ser curadas. Quando temos um sistema em que paga quem quer, só as pessoas mais generosas do que o comum pagam; a generalidade das outras pessoas sentem-se até particularmente espertas porque podem ter sem pagar. Esta é aliás uma das motivações da pirataria informática: muitas pessoas que têm em casa gigabytes sem fim de músicas e software pirateado nem sequer o usam, mas pirateiam-no porque se sentem espertos tendo de borla algo que as outras pessoas pagam.
Diz-se por vezes que o que matou o comunismo foi a ideia lunática de Marx de que, sem as injustiças económicas do sistema capitalista, a verdadeira natureza humana, generosa e iluminada, viria ao de cima, ao passo que a verdadeira natureza humana que realmente veio ao de cima foi precisamente o tipo de coisa que torna a economia de mercado um sistema que funciona, mas o comunismo não. Isto é um pouco como uma queixa que ouvi há dias: que o Carnaval era dantes uma festa do povo, genuína e tudo isso, mas que tinha agora sido tomada de assalto pelo comércio. O disparate desta ideia é não perceber que o comércio só pode tomar conta do Carnaval precisamente porque essa é a expressão livre e genuína do povo: compram coisas, pagam por elas, e escolhem em geral as coisas mais palermas que é possível imaginar. A ideia de que a humanidade é uma maravilha se não fosse os comerciantes que estragam tudo é uma das maiores mentiras da humanidade. Quem vende só vende porque as pessoas compram o que ele vende, e se as pessoas preferissem a biologia à Coca-Cola, os livros de física aos bonés americanos e a poesia às festas de bêbados, quem vende venderia mais biologia, mais física e mais poesia, e menos das outras coisas. A expressão genuína e natural do povo é precisamente o que os lunáticos entendem que é a expressão de outra força qualquer oculta, que só existe nas suas teorias para tentar explicar ad hoc o facto de a realidade, sendo a humanidade uma maravilha tão grande, ser uma palermice tão pesada.
Acontece o mesmo quando se trata de conceber o financiamento do trabalho intelectual: podemos ser como Marx e pensar que as pessoas de livre vontade vão inibir-se de ter mais uma consola de jogos ou mais um par de sapatos ou mais um par de cuecas para financiarem um filósofo, um jornalista ou um cientista. Mas se o fizermos, estaremos a sonhar alto. A natureza humana não é um paraíso, e quanto mais depressa esta ideia entrar na nossa concepção do financiamento do trabalho intelectual, menos ideias economicamente lunáticas teremos.
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