"Configurando Cenas
Colaborativas na Comunidade.
Contribuições da Mediação
e dos Diálogos Facilitados".
O tema que eu quero
compartilhar neste artigo está vinculado à convivência, em termos gerais, que chamamos de comunitária.
Se compartilhamos algo, a respeito deste assunto, é que vivemos em um
momento de confusão, de imensa
preocupação e, até mesmo, em momentos de grande tristeza e desolação. E isso não é porque se apresentam, em nossos contextos comunitários, situações conflituosas,
nem mesmo porque eles podem ser
acompanhados por aquilo que
reconhecemos como situações de violência.
A novidade, em minha opinião, é que, como nunca antes, estamos fazendo
um esforço para superar a dureza,
o enfraquecimento dos laços e a solidão que produz a indefinição e, até mesmo, a não visibilidade própria
e dos outros.
Hoje precisamos, mais do que nunca
e, sem dúvida alguma (e isso é algo que sempre digo
para mim mesma) renovar a
vitalidade que nos permita -
sem negar a realidade ou perspectivas críticas sobre o ambiente político
e social - saber que podemos fazer coisas para viver melhor.
E esse poder "viver melhor", necessariamente, nos remete ou encontra
o seu fundamento no conjunto. Então
falo de renovar a vitalidade
necessária para entrar em um
processo no qual cada um pode construir-se naquele
que quer ser e,
juntos, construirmos a comunidade
que queremos ser.
Para tornar isso possível, não podemos nos
distrair, nem um momento sequer, do
encontro com nós mesmos e do encontro
com os outros. Porque os processos de
autoconstrução ocorrem no contexto
das relações interpessoais (eu preciso dos
outros para ser quem eu sou) e
processos de construção de comunidade requerem
sujeitos interagindo e capaz de observar-se
como sujeitos dessas interações.
Como vocês devem ter notado, eu falo em termos de construção.
Neste processo simultâneo de autoconstrução e
construção do coletivo. E falo em termos de construção, porque a proposta de construir me posiciona frente a duas questões-chave:
invenção e encontro.
Invenção, porque, apesar da perplexidade
e do sofrimento, temos em nossas
mãos a oportunidade de criar novos
significados e de abrir novos caminhos para vivenciar que há outras formas possíveis para configurar as relações interpessoais.
Encontro, porque a única maneira de
criar outras formas possíveis de
se relacionar é refletirmos juntos,
repensando os próprios vínculos e
experimentando - entre todos - novas práticas que nos permitam viver melhor.
Agora, para poder pensar em termos de
"invenção e encontro" é condição prévia dar boas-vindas e dar um lugar de destaque ao desejo e, neste caso, ao "desejo de fazer um futuro melhor para todos".
E notem que eu falo de "desejo de fazer juntos, um futuro melhor para todos" e não apenas de "desejo de um futuro
melhor para todos", porque o fazer juntos um
futuro melhor para todos envolve um esforço, uma ação que
necessariamente é compartilhada.
Fazer juntos um futuro melhor para todos é uma atividade coletiva que
requer, sem dúvida, um sonho, uma imagem positiva do futuro, mas também um compromisso, uma ação compartilhada e responsável. Esse esforço conjunto é que nos permitirá "nos tornarmos
um coletivo" e tem o status de permanente,
do meu ponto de vista. É um esforço que
não termina. Um fogo que precisa ser
alimentado e que pode até ser chamado
de "o nutriente do tecido social, a fundação da comunidade".
Este esforço conjunto deverá gerar
e garantir as condições para
experimentar outras formas possíveis de nos relacionarmos.
A questão, então, é como gerar e garantir essas condições.
Uma resposta possível, encontro, justamente,
no título deste artigo; "configurando
cenas colaborativas na comunidade.
Contribuições da Mediação
e dos Diálogos Facilitados".
Para explicar o meu ponto de vista, eu convido vocês a me acompanhar no jogo "para
dissecar o título".
Em primeiro lugar, eu quero lhes contar
por que eu falo de cenas quando o que eu estou
propondo é, certamente, algo muito
mais ambicioso, abrangente e transcendente.
Peço para ele me
permitam certo atropelo, alguma pressa
intelectual em argumentar sobre este ponto. Embora eu saiba que esta ideia permite seu aprofundamento, com
mais fundamento, procuro apenas deixar o tema proposto, como um esboço,
para poder avançar.
Sob esta licença, parto da seguinte
metáfora: tradicionalmente as instituições comunitárias,
entre elas a escola, a família, etc.,
contavam com um roteiro, um texto escrito, a priori, de suas vivências cotidianas que, enquanto homogeneizavam suas práticas, ofereciam certas certezas sobre o
que cada ator deveria fazer
e sobre o resultado que deveria alcançar. Neste contexto, cada cena
pertencia a um quadro representativo padrão mais
complexo, abrangente e pré-determinado.
Conhecia-se, de antemão, o trabalho e, ao mesmo
tempo, era conhecido, de antemão,
que vínculo teria lugar entre os atores. As
relações sociais tinham programada uma maneira particular de conceber os vínculos sociais e de abordar os conflitos que fossem gerados na interação de
seus integrantes.
Por exemplo, no caso da escola, as relações sociais dependiam, fortemente, da legitimação da
natureza assimétrica de seus papéis,
da aceitação de modos particulares
para a compreensão e a resolução de seus
conflitos e da forte solidariedade
entre a família e a escola, em
que a família transferia para a
escola sua autoridade. Frases comuns como "a professora é a segunda mãe" ou "a escola é a segunda casa", demonstram
essa última ideia.
Este roteiro pode ser sustentado enquanto a ilusão do futuro projetado permaneceu viva: a de que uma sociedade
assim educada acabaria sendo mais civilizada,
que a educação garantiria o progresso e a ascensão social, etc., etc.
A verdade é que o mundo mudou e com ele as ilusões que sustentavam um determinado funcionamento
institucional. Essas mudanças, que afetaram e ainda
afetam todos os campos da vida
social, produziram o desaparecimento, para não
dizer a ruptura, dessa ilusão de futuro em que se apoiavam as práticas institucionais. As mesmas começam a entrar em crise, perdendo sua aceitação, perdendo o consentimento
social que as legitimavam.
Então, como assinalou Ignaicio Lewcowicz "se antes os atores institucionais sofriam pelo caráter normativo gerado a partir da vitalidade das representações simbólicas,
com seu desvanecimento os atores
institucionais começam a sofrer
com a incapacidade de estabelecer, por falta de normas, de códigos e representações comuns que unam e promovam
a construção de vínculos”.
A configuração cênica atual já não consiste na construção
da diferença dentro de um universo que tende para a homogeneização. Hoje, a configuração cênica é o meio através do qual cada grupo
social pode configurar os seus significados
e organizar os vínculos entre
seus atores.
A direção se inverte. Agora é mediante a configuração cênica,
que se pode chegar a representações
e significados, com a ressalva de que
estes não já não são universais, mas individuais e situacionais: eles funcionam para esse grupo e em suas circunstâncias específicas.
Isso é algo bem menor que um roteiro que
busque a universalização. Se o pensarmos
em termos estatísticos, é definitivamente
menos abrangente, mas extremamente
potente, se pensarmos em termos de
ressonâncias pessoais e de recomposição de tecidos sociais.
Em segundo lugar, seguindo na análise do título deste artigo, quero explicar por que modifico o conceito cenas com o adjetivo
colaborativo.
A experiência me diz que a configuração
de cenas colaborativas promove a
construção de novos significados e
práticas para a convivência comunitária. E isto é precisamente o que procuramos.
Para explicar por que eu o entendo assim, vou deter-me, em primeiro lugar, em algumas características que identifico como princípios constitutivos
das cenas colaborativas. Eles são:
• A hospitalidade
• O dialogar e conversar
• A liderança (protagonismo)
compartilhada / distribuída
• As visões compartilhadas
• O estabelecimento de acordos
• O enfrentamento positivo dos conflitos
Tentarei resumir o que entendo sobre cada um desses recursos:
A
hospitalidade refere-se a abandonar o uso de significados
universais para propiciar a aceitação
das diferenças e dos mistérios que
carregamos. Hospitalidade é o que
nos permite, em vez de verdades,
falemos de Versões, que as diferentes perspectivas, colocadas pelos atores, tenham lugar na cena. Neste sentido habilita, como diria Maturana,
o mútuo reconhecimento, o reconhecimento de cada um de nós
como um "legítimo outro".
Falar de hospitalidade implica, então, falar de um quadro de refúgio para que as expressões genuínas
dos participantes tenham oportunidades
de ser ouvidas e compreendidas.
E envolve uma estrutura de confiança
em si mesmo e no outro, no que é conhecido e no que ainda não conhecemos, nas potências, nas possibilidades. A hospitalidade,
neste sentido, também implica um compromisso com o futuro.
Menciono o diálogo como característica constitutiva porque o entendo praticamente como sinônimo de encontro.
O diálogo é uma conversação,
ou seja, um movimento
que gera uma
conversão, uma modificação, uma mudança, um crescimento por deslizamento a
partir da posição inicial. Entendo o diálogo, insisto, como um movimento,
uma espécie de encontro com o outro que,
juntos, constroem uma instância
de superação das iniciais, de onde se negocia e criamos novos significados. Os atores da situação dialógica
não procuram, como no debate, a afirmação da própria posição. O diálogo, ao
contrário de outros atos de linguagem,
longe de enclausurar promove uma atitude
de abertura,
uma disposição de mudar.
Com co-liderança (liderança
(protagonismo) compartilhada / distribuída) entendo que cada
pessoa e todas, em situações de
igualdade, são consideradas sujeitos e não objetos cênicos. Enquanto que com o termo protagonismo foi enfatizada
a autonomia e responsabilidade individual,
com o termo co- protagonismo
reforço a ideia de rede, de uma espécie de "sociedade
inclusiva, igualitária e interdependente
em que os jogadores sustentam o objetivo de criar algo juntos”.
A
visão compartilhada
é a característica que enfatiza, na cena
colaborativa, a perspectiva de futuro.
A visão compartilhada, a imagem compartilhada de futuro permite ao emergente assumir
o status de motor
para a mudança. É a imagem coletiva que cria a disposição de ir adiante.
Esta imagem construída coletivamente
simultaneamente se alimenta e nutre o desejo de fazer
coisas juntos.
Os
acordos, construídos coletivamente, a partir das
expectativas e visões comuns, tornam-se
a garantia da estabilidade, pois permitem que o jogo cênico torne-se regulamentado.
Os acordos reconhecem as ações e
atitudes que cada um tem que fazer
/ ter para conseguir o que se quer fazer juntos. Reconstrói a ligação entre o ter e
o querer e essa religação é a plataforma que sustenta os esforços.
Os acordos, por estar
acima das singularidades, tornam-se uma pequena, mas por vezes, poderosa manifestação da Lei. E, enquanto lei: ao mesmo tempo em que restringe, habilita,
protege, iguala.
O
enfrentamento positivo dos conflitos permite que os atores percebam
as situações de conflito como processos
ao invés de produtos. Isso lhes permite diferenciar as pessoas
dos problemas, e permite realizar experiências de trânsito positivo do
conflito para a mudança. Sabemos
que as diferenças, quando são percebidas como antagônicas, geram divisões, confrontos, tensão e / ou ideias divergentes
sobre os caminhos a seguir. Passar
do confronto para o enfrentamento dos conflitos habilita caminhos para
o encontro ou a construção de novas
alternativas.
Necessito destacar mais duas questões sobre essas
características.
Primeiro,
que foram selecionadas,
partindo da identificação em práticas de
trabalho e não excluo que outros fatores afetem na construção das mesmas.
Em segundo lugar e, em minha opinião o mais importante, é que
todas essas características ocorrem
simultaneamente, formando uma rede
complexa, interdependente e inter-relacionada.
Cada
característica é tanto um princípio (por isso os nomeio como constituintes)
e um local de chegada. São requisitos e consequências,
causa e efeito, parte e todo. Todas elas, simultaneamente, predispõem ao mesmo tempo que compõem a cena colaborativa.
As
instituições comunitárias, como eu as entendo, têm que promover que essas características ganhem vida em suas cenas e, para isso, devem garantir que elas sejam percebidas e vividas como princípios constitutivos. Para gerar as condições necessárias para a configuração de cenas
comunitárias colaborativas, as instituições devem garantir a experimentação de suas características como princípios fundantes.
Para acabar com a dissecação do título deste artigo, me deterei em dois
métodos que, em meu entendimento,
fornecem informações e dispositivos para
a configuração de cenas comunitárias colaborativas.
Falo dos Diálogos facilitados e da Mediação.
Ambas
as metodologias são e, ao mesmo tempo, promovem (garantem e geram) a configuração
de cenas colaborativas. O entendo
assim porque:
·
Permitem trabalhar o objetivo de transformar os
vínculos.
·
Tem como
premissa revalorizar recursos e oportunidades já existentes e
gerar outras, inéditas, para construir realidades
comuns e novos caminhos para sua consolidação.
·
Não tratam de suprimir o conflito, mas
sim trabalhar com a diferença e a
diversidade de perspectivas como fonte
de enriquecimento para novas relações.
·
Buscam
intervir em um processo que estimula a construção e a criatividade social.
·
Dão vida ao conceito de "poder"
como um verbo (e não um substantivo), o que é o importante para a construção de futuros, para entrar no universo das possibilidades.
O
que é mediação e a facilitação de diálogos, senão um compromisso com a
construção de um mundo melhor para
todos?
No
processo de mediação e facilitação, temos a oportunidade de gerar e garantir as condições para que tenham espaço os esforços que favorecem
a restauração do tecido social. Isto possibilita
redefinir o pensável, o possível e o conhecimento: sobre nós mesmos,
sobre os outros, com os quais nos relacionamos, sobre as formas em que se estabelecem essas relações.
As
estratégias de intervenção dessas metodologias são,
definitivamente, estratégias de ligadura. Convidam a compor e compor-se
pensando com outros, inventando
como estar nessa situação, habitando-a,
e assumindo de antemão como tem que estar o que se necessita para viver lá.
Eu estou falando,
então, de uma mudança de paradigma,
que, como diz Mark B. Woodhouse "é sempre mudar nossa definição do que é possível."
Agora, para abrir a porta para o universo do possível, se exige uma mudança de epistemologia. Nós não podemos mudar nossas suposições
fundamentais sobre o mundo sem mudar a nossa forma de obter conhecimento sobre ele. A cada visão de mundo corresponde
uma forma de saber, uma
epistemologia.
E se aceitarmos
a ideia de que todos nós conhecemos
de maneiras distintas e compomos mundos diferentes, como chegamos a pontos de vista comuns? Definitivamente, a resposta está no diálogo,
no intercambio.
Spinoza define o conceito de "corpo" simultaneamente de duas
formas. Por um lado, um corpo,
por menor que seja, comporta sempre uma afinidade de partículas. São as relações de repouso e movimento, de velocidade
e lentidão, entre as partículas, que irão definir o corpo, a individualidade do corpo. Por outro lado, um corpo afeta a outros corpos distintos e é afetado por eles;
este poder de afetar ou de ser afetado também define um corpo em sua individualidade.
Da
minha perspectiva, quando dialogamos em uma mediação ou facilitação devemos incentivar que os
corpos se afetem, se modifiquem, como
plataforma para emergir as coisas
que não eram registradas anteriormente.
Nesse sentido, o espaço
ético que se abre é um espaço de
produção subjetiva e produção de novas realidades
construídas a partir de nós.
Nestas metodologias "conversamos", ou seja, nós conseguimos "conversões".
O
"nós"
reconhece que cada um dos que compõem
o plural é sujeito ativo em seu processo constitutivo e não objeto do pensar
de outros.
A partir desta perspectiva, entendo que a
recomposição dos laços sociais, o esforço contínuo para fazer - juntos - um futuro melhor para todos, não se baseia na ideia de
defender a ausência de conflitos, de desacordos,
de diferenças, de disputas.
Fazer
o esforço conjunto para construir um futuro melhor para todos implica:
·
Reconhecer as virtudes e os valores de cada integrante
da comunidade e aqueles
produzidos no coletivo.
·
Adotar
um paradigma positivo e
construtivo sobre conflitos.
·
Criar uma ética do presente
e para o futuro.
·
Gerar o movimento de estruturas individualistas para a construção da participação
comunitária responsável.
·
Incentivar a construção de uma
consciência coletiva que nos permita, diariamente, renovar a
vitalidade necessária para construir e viver a interdependência que liga
com igualdade, justiça e alegria.
Ignaicio
Lewcowicz, “Pensar sin Estado” Ed. Paidós, Buenos Aires, 2005.
Woodhouse,
Mark “Paradigm Wars: wordviews for a new age” Frog. Lta. 1996